“Criança:alunos”- A bagunça dos "Sem-Luz": Algumas impressões

A salas de aulas se parecem muito com isso...

1- Tive que “tomar conta” d’um grupo de “crianças-alunos” do ensino dito fundamental esta tarde. Criaturas que não ficaram para recuperação nas avaliações do 3º bimestre na escola onde estou trabalhando. Sua “tia”, a professora, os mandou para videoteca, onde estou trabalhando para assistir “As crônicas de Narnia” enquanto ela cuida dos que não tiveram a mesma sorte deles (?). O tal filme não foi uma escolha pensada e previamente planeja pela colega. Pertencia a uma das alunas. Nesta “escola” há um costume, digno de uma reflexão mais elaborada no futuro de alguns colegas, como subterfúgio, evasiva, truque se utilizarem do artifício de fazerem sessões de exibições de filmes em DVD de desenho animados da Disney, filmes do Harry Potter, Anaconda e As Crônicas de Nárnia como ópio não do povo que ele ministra aulas, mas deles mesmo. É um bom momento de descanso, de quebra da rotina bizarra desta fatigante profissão, pelo o menos, do jeito como ele funciona neste País. É um “jeitinho” fácil de ocupar uma turma de alunos quando algum professor adoece e nenhum outro profissional pode ou agüenta “juntar turmas”. Na falta destes dois: empurram-lhes filmes! Afinal, como a escola funciona de forma similar a uma indústria: o tempo de “produção” tem que ser cumprido a qualquer custo: é a pedagogia do relógio de ponto. Azar dos operários que liberarem sua “matéria-prima” antes da hora! Então, um dia durante a semana é reservado para deixar a “molecada”, “esta espécie de matéria sem forma,” ocupada em assistir filmes como pretexto para fazerem qualquer outra coisa, menos assistir o filme, a aula dos seus professores ou de outro professor que se disponha a “juntar turmas”. Fico a pensar, se não seria melhor outra atividade que fizessem eles gastarem mais energia a ponto de se aquietarem, ficarem menos elétricos. Mas, isso cansaria mais o professor e menos os pais desses alunos. Sabedores disso, jamais os colegas substituirão os filmes por outra atividade que aumente seu trabalho. As sessões continuarão, com certeza, existindo. De forma parecida, esses alunos também já sacaram, se deram conta do quanto esses momentos é para eles interessante. Uma válvula de escape da mesmice rotineira a qual são submetidos diariamente. A mesmice da prisão ou dos antigos manicômios brasileiros. Mesmice sob o “controle” e a “vigilância” do, neste caso, professor.

2- Hoje foi um desses dias. Eles foram chegando, como uma manada, uma turba amalucada que corria desembestadamente da sua sala-de-aula em direção a sala-de-vídeo. Invadindo-a, emburacando nela como se não houvesse nada a sua frente ou alguém ali com o ofício de lhes vigiar também. Tal comportamento deles me deu a certeza momentânea que, de fato, que isto é pura ficção. Que vigiar que nada! Para os mesmo: não havia alguém ali, ninguém estava ali! Só para mim que havia alguém: eu! Neste caso, eu é que não via, estava cego com o clarão emitido por esses alunos. Senti-me como uma das personagens do Saramago: “Ensaio sobre a Cegueira”. Com uma ordem, uma organização e uma relação social conhecida somente por eles, mas, extremamente estranha a mim, invisível para mim. Coisa que me incomodou. Alteraram todo o ambiente da sala. Curioso é que, o que para mim significava a ordem, arrumação e a limpeza, para eles, era o caos! E diante dele: impuseram a sua própria versão de mundo organizado. Criando comigo um antagonismo.

3- Sinceramente: o jeito, o cheiro, o som, o movimento, o olhar: tudo para mim soou repulsivo. Minha vontade era de ficar bem longe destes vândalos, bárbaro-mirins, destes “filhos de Átila”, o Huno. Bando de maloqueiros selvagens, brutos e a prova de qualquer modelagem ou formatação externa, vinda de fora. Figuras que não se permite serem educadas por alguém que não queiram. Quem é que consegue fazer isso contando com a colaboração deles, com sua boa vontade e sua iniciativa, dentro da escola que existe? NINGUÉM que eu conheça pelo o menos. Será que isso existe? Uma educação de “massa”! Da “massa” de alunos! Se considerarmos como um dogma pedagógico, um credo tido como verdadeiro por muitos docentes brasileiros o significado pejorativo aplicado a palavra aluno, você leitor, poderá se aproximar do que senti hoje estando com eles por duas horas. Segundo o artigo de Maicon F. Bauer Stein: “Aluno seria formado por a – prefixo de negação (normalmente usado em palavras gregas), mais/e luminis ou lumina – Luz, do Latim. Se encararmos "luno" como Luminis. A decomposição da palavra aluno seria sim "sem-luz" ou "ausente de luz". “ Aluno, portanto, é aquele ou aquela pessoa “sem luz”. Segundo o mesmo autor, isto é um mito etimológico, que é usado de forma pejorativa para definir as criaturas que são postas sob os “cuidados” de um ou vários professores de uma escola. Minhas duas horas com eles forçaram-me a concordar com esta definição. Há luz sim, que cega, que me cegou com o seu clarão. Mas uma luz desconhecida por mim, indecifrável, incontrolável, ofuscante.

4- Que meus leitores possam me perdoar, mas, com 43 anos de idade e 21 anos de profissão, já não tenho mais aquela fé dos meus primeiros anos de labuta docente. Perdi não só determinada fé que tinha nos “alunos”, mas e muito mais, um tipo de fé que tinha nos meus colegas de ofício. Não acredito que dentro do sistema educacional em vigor, haja muitos que sejam capazes de influir no jeito de ser, de pensar e de agir dessas pessoas, socialmente e atualmente, tratadas como crianças: alunos. A impressão que eles me passaram foi de um caos absoluto, um nada que se recusa a ser alguma coisa que “gostaríamos” que elas fossem. Que força, que poder será esse que essas criaturas possuem que só a força bruta e o medo, juntos, podem subjugá-la? Que poder será esses que eles têm de determinar se permitem ou não ouvir um professor? De, espontaneamente, atendê-los em seus pedidos? Que se recusa a vontade sem contestação racional alguma que funcione de fato? De fazer o que não quer, que desafia mãe, pai, professor, diretor, polícia, padre, pastor, juiz e até as divindades se isto der na telha? Sinceramente, não sei explicar. Só sei que aplicar o adjetivo “aluno” a essas crianças no sentido supracitado, é inapropriado. Porque, se trata de uma questão de hermenêutica de cada um.

5- No meu caso: perto desse pessoal, entre eles, diante deles, senti-me tremendamente impotente, aperreado, desesperado, angustiado por não ser capaz de seduzir suas vontades, sua atenção e sua cooperação. E o pior de tudo: não compreendê-los. Com isso, não ter conseguido controlá-los. Suas ações parecem puro instinto, se é que existe isso. Trouxe-me a lembrança de alguns animais selvagens. Vivendo o agora do agora e nada mais. Dizem alguns filósofos que o animal, no sentido biológico do termo, vive o imediato, não tem memória do dia anterior. Por isso, todo dia lhes aparecem como uma novidade. Nesta hora lembrei-me de Hermann Hesse, in "Gertrud" (personagem Kuhn) quando escreveu: “a escuridão, as trevas desesperadas, é esse o círculo terrível da vida do dia-a-dia. Por que é que uma pessoa se levanta de manhã, come, bebe e se deita outra vez? A criança, o selvagem, o jovem saudável, o animal não padecem sob a rotina deste círculo de coisas e atividades indiferentes. Aquele a quem os pensamentos não atormentam, alegra-se com o levantar pela manhã e com o comer e o beber, acha que é o suficiente e não quer outra coisa.“ Seria esta uma explicação possível para o tormento, a aflição, o incômodo meu e dos meus colegas: o comportamento paradoxal dos que consideramos “sem luz”? Dessas ”crianças-alunos” que segundo Hesse, tem a vantagem de não serem incomodados por nada, não ligarem com nada que não seja do seu interesse e muito menos, sofrerem com pensamentos que “não dispõem”?

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