DIÁRIO DO EXÍLIO



  1. Dormimos muito, mas acordamos ainda pela manhã. As crianças estavam desde antes na casa dos avôs. A patroa foi para lá também de carona com seu irmão. Fiquei de ir mais tarde, planejava ajeitar o computador a fim de poder escrever um pouco e elaborar o requerimento que pretendo enviar para a SEAD com o intuito de saber se vou ou não vou ser contemplado pelo enquadramento no quadro de servidores federais.
  2. Aprendemos estudando algumas teorias da história que o momento presente em que o historiador pesquisa e escreve; o assim chamado contexto ou conjuntura a qual ele está inserido é o fio condutor de todo relato por ele produzido. Sendo assim, não há escapatória para mim. Sou um prisioneiro do meu tempo presente. Mesmo que este estivesse repleta de futuros prováveis, de sonhos irrealizáveis e esperanças inexplicáveis, não há como se safar dele.
  3. Os sentimentos que me dominam não são os melhores; não tenho razão alguma para me sentir diferente desde que me mudei para a cidade de Rolim de Moura. Palavras outrora ouvidas no tempo que estudava na UNIR, ditas pela Marta Valéria soam proféticas agora: “Você é um peregrino, andante que demonstra estar sempre em busca de algo.” Porém estranhas para alguém cheio de bagagem como eu. Cavaleiros andantes não carregam malas!
  4. A ilusão de estarmos de férias gera outra ilusão: a de que o tempo passa rápido. Sendo assim não me foi possível iniciar minha autoterapia, meus auto-exorcismos. Venho ao longo dos anos sendo possuído por espíritos malignos dos outros. Penso que Sartre se refere a eles quando os chamam de inferno. Seres sem graça, por isso, malignos. Invasores de corpos que nos tomam de nós mesmo. São onipresentes, interferindo até quando escrevo.
  5. Um desses seres se chama tristeza. Sentimento difícil de descrever, definir, mapear; racionalizar; coisa para terapeuta. Eu apenas sinto. Lembrei que Rubem Alves sugere uma saída quando diz: “estou triste, escrevo!” Alberto Lins Caldas diz algo parecido ao fazer literatura. Lá ele pode ser o libertino que não pode ser aqui. Por isso escreve. Eu tento fazer a mesma coisa.
  6. Fui para a casa do meu sogro de bicicleta. Como é longe! Que ladeira da peste tem que subir para chegar lá. Para Iza é o paraíso. Sendo isto uma verdade, compreendo o meu sufoco. É coisa de protestante mesmo. Quero a salvação, mas sem esforço, apenas pela fé. Como estava com fome, não tive outra escolha senão ir. Lá fiquei até nós voltarmos à noitinha. Eu me distraí conversando com minha cunhada historiadora, chupei cana e comi cocada de amendoim da sogra. E ainda tirei sarro da cara da Cristiane, bancando o cupido para ela.
  7. Para chegar e voltar do “paraíso” aqui, agente desce e sobe ladeira. Como bom protestante que sou, gostaria de, pelo o menos, ter uma motinha para suavizar o meu deslocamento. Há quem costuma, sempre que tem uma chance, me dizer que poderia ter um carro nessas horas. Mas isso, não é privilégio de “afastados”; “desviados”, ‘”dês-tocados pelo senhor. Tenho as minhas dúvidas!
  8. À noitinha voltamos. O Veio nos acompanhou pelo trajeto, tirando onda comigo. Dizendo que para ele era moleza subir a ladeira; que ele faz isso uma duas vezes diariamente. O engraçado era que bastou uma luz alta do farol de um carro que passou por nós para revelar sua conversa fiada. Vimos que ele deu uma paradinha para descansar. Cansou de carregar ele mesmo e a Janyne de carona. No caminho vimos algumas casas para venda. Não gostei de nenhuma. Parecem estar em cavernas de tão escuro onde estão. Escuro por escuro, fico onde estou no momento.
  9. São intrigantes os locais sugeridos pelo Veio. Por que será que ele escolhe sempre lugares periféricos, escuros, de chão pelado, lúgubres e até sinistro para mim? Será que é uma questão de mentalidade camponesa, de visão não urbanizada? Gosto pelo rústico? Ou será por uma razão prática? Durante uma conversa nesta terça feira dia 26 de manhã, ele deu uma pista. Ao pedir para ele procurar uma casa mais próxima ao asfalto, da avenida principal, ele respondeu dizendo que, não gostava de tomar água da CAERD. Será que isso explica suas opções? Usar água de poço é melhor, mais barato ou ambas as coisas para ele? Penso que, no caso dele, é uma questão de gosto, não de praticidade. No meu caso, é uma questão de custo. Revelador não é?
  10.  Terminei a noite escrevendo um requerimento a ser enviado para a SEAD em Porto Velho. Fruto do meu desejo de ser enquadrado como funcionário público federal, na esperança de que possa mudar de vida com isso. Mas, ciente também que isso pode ser outra ficção.
Terminei este texto as 12:37 da manhã do dia 26/01/2010.

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