Antropologia da amizade... Adjair Alves [1]

Como muito bem sugere o grande pensador grego, Aristóteles, a amizade é um tema que dar margem a muitas discussões. Parece lugar comum, que nos afeiçoemos por quem possua certa semelhança conosco; por quem pensa e sente como nós mesmos. Por outro lado, parece igualmente comum que nos distanciemos daqueles que tendem a se posicionar ou pensa contrariamente a nós. Mas é igualmente comum sentirmos-nos atraídos pelo diferente de nós. Como assinala Durkheim na “Divisão do trabalho social”, talvez esteja aí, a dificuldade em se discutir a natureza da amizade. Ora pensamos que ela deriva da correspondência dos nossos pares, ora, que tenha origem nas dessemelhanças.

Segundo alguns pensadores, a amizade é própria dos que se parecem. Daí alguns provérbios: “cada qual com seu igual”, “dize-me com quem andas e direi quem tu és”, “não andarão dois juntos, se não tiverem em acordo.”, etc. Segundo o poeta Eurípides, ‘a terra ressecada está enamorada da chuva, e o céu escuro, carregado de chuva, se precipita com amoroso furor sobre a terra. ’ Já Heráclito, por sua vez, afirmava que só os que se opõe, se ajustam; que a mais bela harmonia nasce das diferenças, e ainda, que a discórdia é a lei de todo devir.

Pelo que podemos perceber desses pensadores, parece que a amizade possui origens diversas. Este parece ser também o entendimento judaico-cristão sobre as origens da amizade. Na bíblia, Deus ama o mais viu pecador. O que abomina, é o pecado e não o pecador. As diferenças se atraem. “Onde abundou o pecado, superabundou, a graça.” O próprio “Filho de Deus” sugeriu o amor pelos inimigos, contrariando o profeta Moisés, que entendia que os inimigos deviam ser amaldiçoados. O mesmo Jesus compreende que entre os amigos, não pode existir disputas, o que sugere respeito às diferenças. O profeta Amós, por sua vez, entendia que duas pessoas não poderiam comungar se não estivessem de acordo. Os Provérbios exortam a evitar as rodas dos escarnecedores. O apóstolo Paulo, sendo judeu, se sentia escolhido para apóstolo dos gentios, isto é, os execrados do reino de Deus.

Diferenças e semelhanças parecem estar nas origens da amizade. Como assinala Durkheim (1999:20), “a dessemelhança como a semelhança, podem ser causa da atração mútua”. Mas não é qualquer dessemelhança que é capaz de produzir amizade, como assinala este pensador: “não temos prazer algum para encontrar no outro uma natureza simplesmente diferente da nossa. Os pródigos não buscam a companhia dos avarentos, nem os caracteres retos e francos a dos hipócritas e sonsos; os espíritos amáveis e doces não sentem nenhum gosto pelos temperamentos duros e mal-intencionados.” Para este pensador, só a diferença de certo gênero tendem, uma para a outra. Ele destaca aquelas que não se opõem ou não se excluem, ao contrário, se complementam. “Há um gênero de dessemelhança que repele, outro que atrai. Um que tende a trazer rivalidade, outro a conduzir à amizade.” (p.21). Assim ocorre quando desejamos algo que não temos, mas que se encontra noutra pessoa. Podemos citar como exemplo: a afabilidade, a paciência, a presteza, que muitas vezes encontra-se no outro de nós, mas não em nós mesmos. Isto pode gerar uma atração positiva.

Imagine então duas pessoas; um teórico de espírito racional e sutil, e a outra, de espírito prático. Evidente que nutrirão, um pelo outro, uma atração natural. Assim se dá entre os tímidos e aquelas decididas e resolutas, uma pessoa frágil e outra de espírito forte, etc. Isto é, todos nós temos necessidades de alguma coisa, e esta é a razão por que buscamos o que nos falta, nos outros, em nossos amigos, porque assim nos sentimos como que completado pela natureza do outro. Esta é uma necessidade de proteção e de sobrevivência, que fomenta, segundo Durkheim, a divisão do trabalho social e que determinam as relações de amizades.

Mário de Andrade em cartas a Drumond (1926) afirma a amizade como processo de aprendizagem. Diz ele: “Ame os companheiros de vida, mas nunca deixe de por dentro estar observando eles. Faça de todos, o seu aprendizado contínuo, não pra espetáculo e pra obter prazeres infamemente pessoais, porém pra recriá-los para aproveitá-los em sublimações artísticas, verso ou prosa, a vida de você e seu destino”.

Se ele enfatizava o alcance coletivo da amizade voltado para o exercício da sociabilidade, e se a compreendia como espaço de expressão de sentimentos, conformando afetos e identidades, alertava, por outro lado, para uma abertura que ela possibilitava: sensibilidade para a reflexão artística. Entendia que o afeto pelos companheiros de vida, deveria extrapolar o nível restrito das relações pessoais, induzindo ao processo reflexivo.

Nos séculos XVI e XVII, onde se insere o “calendoscópico ciclo do Barroco”, o envolvimento afetivo, advém, como o têm demonstrado estudos recentes, duma concepção muito peculiar que os homens daquele período formularam sobre os reais e verdadeiros significados duma práxis quotidiana carregada de gestos de amor e de amizade. Essencialmente, o universo das relações existentes no período moderno – vínculos familiares, fidelidades de vassalagem, fidelidades de estatuto, clã ou facção, etc. – assentavam num sentimento comum, o qual revelava uma força e uma onipresença invulgar: o amor pelo próximo.

Mas qual a influência de conceitos que, não obstante uma mundividência cristã que os relevava como bases sólidas de um correto ordenamento espiritual, indubitavelmente, estão ligados a concepções abstratas e, de certa maneira, aparentemente desligada do terreno social e efetivo da ação dos indivíduos?

Pesquisadores como Raymond Firth e Evans-Pritchard, considerando a questão trataram de abordar este fenômeno a partir da interioridade e dos compostos espirituais que modelam as ações e os gestos dos indivíduos. A partir de pesquisas realizadas com povos distantes, ainda em estados considerados rústicos pela Antropologia de então, concebiam as relações afetivas por meio de três ideias-base. Em primeiro lugar, como a ordem mais forte e duradoura, ou seja, entre as diversas formas de normatividade que então operavam nestas sociedades, a ordem instaurada pela afetividade era, entre todas, a mais integral e extensiva, pois regulava as relações de filiação no seio do universo doméstico aristocrático, as alianças entre as famílias, e também o modo como as famílias se relacionavam com a realeza. Por outro lado, acreditava-se que o mundo – esta substância física recheada de dimensões naturais – tinha sido criado e desenhado por um ato, único na especificidade criadora que operou, de amor da divindade. Por sua vez, a sociedade Moderna definiu claramente a sua instituição essencial e primordial da ação afetiva como sendo a família.

Assim, por meio do gesto fraternal de um paterfamilias, que é o pilar por direito do agregado familiar, desenvolve singulares gestos de afetividade e de amizade; no trato íntimo das relações sociais; no respeito de uma ordem social que, à semelhança do ato criador por excelência, foi querida pela divindade; no cimentar de redes de solidariedade que, na especificidade do meio nobiliárquico, se baseavam em valores inerentes à honra, à amizade virtuosa, à entreajuda e a todo um universo de trabalho onde vigorava uma intimidade fraternal e familiar, portadora, no seguimento de uma cultura corporativa, de um mesmo “ethos”, de valores comuns que, acima de tudo, assentavam em laços sentimentais.

A amizade é, pois uma virtude extremamente necessária à vida. Mesmo que possuamos diversos bens, riqueza, saúde, poder, ainda assim, não será suficiente para nossa realização plena, pois nos falta a essencial e indispensável amizade. Na ética aristotélica, quanto mais influência e poder manipular um homem mais necessidade ele terá de ter amigos. A justiça e a amizade possuem os mesmos fins, mas considera-se a amizade superior a justiça, pois a justiça é utilizada para contornar nossos atos em relação ao próximo que não conhecemos. Com os nossos amigos não precisamos de justiça, pois a natureza da amizade nos é completa, como mais autêntica forma de justiça.

Sua utilidade se estende ainda mais, ela mantém cidades unidas, pois assegura a unanimidade e repele o faccionismo. Por conta disso, afirma Aristóteles: “A amizade não é apenas necessária, mas também nobre, pois louvamos os homens que amam os seus amigos e considera-se que uma das coisas mais nobres é ter muitos amigos. Ademais pensamos que a bondade e a amizade encontram-se na mesma pessoa”. [2] A condição necessária e basilar para se formar uma amizade se dá pelo conhecimento de uma a outra pessoa que desejam entre si reciprocamente o bem. Assim como a condição específica para ser objeto de amor é ter um caráter bom, agradável e útil. Acrescenta Aristóteles que deve existir mais de uma forma de amizade, neste sentido apresenta três espécies de objetos de amor: o que é bom, ou o agradável, ou útil.

Destes três objetos nascem três espécies de amizade. Encontra-se em situação de superioridade aquela que é motivada pelo bem, pois é duradoura. Enquanto a agradável está relacionada aos jovens e a terceira parece existir principalmente entre as pessoas idosas, pois nesta idade buscam não o agradável, mas o útil. Nestes tipos de amizades as pessoas buscam seus próprios interesses para terem alguém que lhes proporcionem prazer ou alguma utilidade. Não ama o amigo por ele mesmo, mas na medida em que ele pode proporcionar algum bem, utiliza a amizade para conseguir outra coisa, de modo que o amigo é tido como um meio; não como um fim. O verdadeiro amigo quer as coisas para as pessoas a quem ele ama. O amigo por acidente as quer para si.

Segundo Aristóteles, o requisito essencial para a amizade é “a consciência, a qual só é possível se duas pessoas são agradáveis e gostem das mesmas coisas”. Entretanto, se a ausência é demorada parece provocar o esquecimento da amizade. Há uma outra espécie de amizade que envolve a desigualdade entre as partes, por exemplo, a amizade entre pai e filho, entre velho e jovem, entre marido e mulher, e em geral a amizade entre quem manda e quem obedece. Como tornar proporcional a amizade entre os desiguais? Chegamos afinal ao nosso ponto de partida, que é refletir sobre a diferença como fonte de complemento da vida humana, que se põe aqui como fundamento de todo gesto de afetividade. Amamos porque nos completamos com o outro, diferente de nós.

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Referências Bibliográficas.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Edson Bini. Bauru, SP.: Edipro. 2002.

DURKHEIM, Émile. Da divisão social do trabalho. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes. 2004.

ORTEGA, Francisco. Genealogia das amizades. São Paulo: Iluminuras Ltda. 2002.

OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. Razão e afetividade. Brasília, DF.: Editora da Universidade de Brasília. 2002.



[1] Filósofo e Antropólogo – Doutorando em Antropologia pelo PPGA/UFPE. Professor de Antropologia da UPE/FACETEG/Garanhuns-PE.

[2] Ética a Nicômaco.

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