DIRETORES MUTANTES DAS NOSSAS ESCOLAS PÚBLICAS



Escarnecido, abandonado, sofrer mil vezes no tempo. Nada ter, nada poder, nada ser, eis o meu esplendor. (Angelus Silesius, Cherubinisher Wandersmann, II, 244)

1- Nos vinte anos de vivência dentro das Escolas Públicas como um professor comum nunca vi colegas, salvo engano, que foram nomeados diretores ou diretoras passarem a ter total e efetivo comportamento democrático após tomarem posse do cargo de confiança que ganhou. O que chama atenção, apesar desse fato ser até hoje muito comum e até visto como “normal”, é a mudança de percepção que essa espécie de “parasita” da confiança governamental passam a ter de si mesmo. A grande maioria deixa de si ver como um professor qualquer da rede de ensino público. Há um abandono da identidade original, um esforço até cínico de esquecer o professor que sempre foi e uma mudança casuística da maneira de como enxergava os acontecimentos e os colegas ao seu redor. Ela, por força do formato social que esse cargo tem se configurado em Rondônia e talvez no resto do Brasil, experimenta uma metamorfose não só de percepção como de perspectiva e até, muitas vezes, de visual. Um exemplo extremo e pitoresco disso era o costume de um ex-diretor que ia para a escola estadual que dirigia vestido a rigor, de paletó, terno e gravata em pleno verão amazônico. Há alguns que, quando comparado com o que era antes e o diretor que se transformou depois mais se parece ter si metamorfoseado num travesti portariado de tão diferente que fica. Verdadeiros mutantes a serviço do governo de plantão.

2- De posse desta “nova” auto-imagem, esse diretor ou diretora mutante que contratualmente não passa de um professorzinho ou de um supervisor qualquer: meros graduados na maioria absoluta dos casos passam a, equivocadamente, se sentir poderoso. Senti-se como se fosse o próprio governador em pessoa se sentando na cadeira de diretor da escola. Com esse sentimento e imagem equivocada, enganosa e até perigosa, querendo ou não, pouco ou muito, logo, logo extrapolará as atribuições para os quais ele foi nomeado para o referido cargo. A mutação então se completa transformando aquele simples professor num monstrengo indigesto para muitos dos que ele passou a dirigir desde então. Em especial para os considerados normais.

3- É costumeiro este “ex-professor” agora “diretor mutante”, de posse de sua portaria -uma espécie de vírus mutante- passar a olhar por cima os colegas e se aproveitar deles o quanto puder. O monstrengo passa também a dar muita importância a si mesmo, como se fosse uma espécie de demiurgo atrofiado da história da escola que dirige. Esta não é nada sem ele. Nenhuma decisão é tomada sem sua prévia anuência. Nenhuma nova idéia pode ser posta em prática se não tiver seu aval e não levar o seu nome e, pior, se não lhes trouxer algum dividendo político ou econômico. Há um caso passado que serve de um bom exemplo disso. De um desses mutantes, que além de mutante é evangélico presbiteriano fundamentalista, que curiosamente, já ocupou um relevante cargo dentro da SEDUC. Após o sucesso da realização de um projeto concebido por um professor da escola que dirigia ganhou o prêmio e recebeu todas as honras devidas a esse professor. O prêmio era uma viagem aos EUA e quem curtiu foi justamente o mutante. O professorzinho otário ficou a ver navios. Nem sequer teve seu nome conhecido, mas o diretor-mutante, como um parasita que é, foi que de fato, que se deu bem. Seria isso um dos privilégios dessa sua mutação?

4- O diretor-mutante, mal acaba de tomar posse, vai devagarzinho cooptando professores em final de carreira; cansados de sala de aula, que se tornaram incapazes de serem criativos e reflexivos. Professores que não passam de meros auleiros de índole conservadora; autoritária e alguns vadios do tipo “betiano” [que fingem trabalhar], caudatários de uma pedagogia típica de fábrica do século 19; pré-PCN e utilitaristas, ou seja: não voltada para as vidas vividas pelos alunos e que ele ainda viverão como um todo, mas exclusivamente para realização do vestibular. Um padrão típico das escolas privadas tidas por essa gente como referência absoluta para as Escolas Públicas. Esse é o tipinho de professor que cooptado para dar respaldo às decisões do diretor mutante. Um pessoal que em troca de certos privilégios passam a servir de eco, escudo, olhos e ouvidos desse travestir nomeado.

5- Já de posse do “cargo” e com sua “corte” ou “aristocracia” formada, o diretor mutante passa a não ser apenas babado, bajulado e protegido por eles. Passa também a ser temido por aqueles outros professores plebeus: aqueles que, inadvertidamente ingressaram na carreira do magistério. Os novatos. Como também pelos os mais antigos que têm aversão a mutantes e a sua galera. Estes últimos são seus principais alvos de sua eterna vigilância. Quantos aos novatos, esses são alvo de sua persuasão ideológica. Em momento de greve, eles são facilmente convencidos pelo argumento do medo desses diretores mutantes a não participarem dela. Já em relação aos anti-mutantes, a política é de cerco, de marcação cerrada, de assédio moral constante até provocar o conformismo desses, seu afastamento “voluntário” ou caírem em suas armadilhas e serem evacuados pelo diretor-mutante da escola. Isto é, serem devolvidos.

6- Mas, por incrível que pareça, há quem lute para que a portaria dada pelo governo não o transforme num mutante. Coisa muito difícil de evitar. Este procura não agir como “normalmente” a maioria absoluta agem. Alguns, que tem dificuldades de se fazer compreendidos, tentam evitar isso se apegando rigorosamente às leis de forma absolutamente radical, seca e até desumana. Tudo isso num esforço desesperado para não se metamorfosearem. Participam dos eventos que reúnem todos esses mutantes, mas, ao contrário deles, tentam não saltar fogos, falar palavras de ordem pró-governo em questão e, principalmente evitam falar mal dos ainda por eles considerados colegas de profissão, os professores. Nem se envolvem em queimação dos colegas anti-mutantes que existem em todas as escolas. Outros conscientes de que estão diretores, mas que não são diretores [mutantes] age sabendo que não são eternos, mas passageiros. Procuram pautar suas decisões em consensos construídos democraticamente com seus colegas professores e, espantosamente, toleram o dissenso, os que com eles não concordam. É capaz de discordar, inclusive, dos absurdos oriundos do gabinete de quem o nomeou e procuram tocar o barco da melhor maneira possível.

7- O triste fato é que essas pessoas que aceita a nomeação para ser diretor ou diretora é coagido a ser mutante também. Não importa quanto tempo leve. A pressão é grande e constante. Os de índole autoritária, de alma sebosa, oportunista, interesseira e pilantra nem precisa de coação alguma: aderem de imediato porque, no fundo sempre foi um mutante. Só precisavam de uma oportunidade para sair do armário. Já os de índole oposta, sua gestão tem vida curta. Mais cedo ou mais tarde, se não se renderem, serão tirados do cargo. Muitas das vezes de forma até vergonhosa como aconteceu recentemente com um colega de uma escola de grande importância da capital. Mesmo sendo ela uma pessoa tão apegada às leis e orgulhosa disso, foi expelida da mesma sem reconhecimento algum. Mesmo os conscientes de sua transitoriedade, só poderão sobreviver se houver a instituição das eleições para diretor de escola e tiver também a oportunidade dela participar. Fora isso, não terá vida longa na repartição que dirige. Ou vira um mutante ou voltará a ser um simples professor.
 

PAPERBLOG







1 comentário

Postagens mais visitadas deste blog

CULTURA, INTERCULTURALIDADE E MULTICULTURALISMO: UM INVENTÁRIO DAS IGUALDADES E DIFERENÇAS TEÓRICAS NA EDUCAÇÃO

DEPOIS DO VENDAVAL

CABECINHAS ENVENENADAS!