História e identidades: uma filosofia sobre a representação das diversidades.

*Nota de um dos colaboradores deste Blog: Foi devida a importância do conteúdo do artigo abaixo que resolvi reproduzí-lo aqui neste Blog. Levando em consideração que muitos dos seus seguidores residirem em Rondônia, um lugar, cuja identidade, esta grande ficção social, ainda está em gestação, nada melhor que considerar algumas das afirmações aqui feitas na hora em que pararmos para discutir o que faz ou não faz alguém ser "rondoniano" ou "rondoniense". DesProf. PEIXOTO.

 

A questão das identidades, o modo como os indivíduos e grupos enxergam a si mesmos, constroem referenciais culturais e defendem seus valores, criando espaços de negociação com outros grupos ou sustentando conflitos, é hoje uma discussão essencial.


Em um cenário em que a globalização massificou o acesso à informação, padronizando comportamentos e referenciais, a conscientização acerca do convívio com as diferenças, paradoxalmente, adquiriu uma importância impar. A razão é obvia, diante dos antagonismos, a diversidade saltou aos olhos, os mais diferentes grupos voltaram seu olhar para si mesmos tentando manter viva, entre outras, a identidade étnica ou regional. Por outro lado, a integração econômica, no âmbito do capitalismo neoliberal, fomentou a necessidade de conhecer o outro, entender seus anseios e desejos, o que passa pelo estudo das identidades.

Esta preocupação não é nova, desde o século XVII, a filosofia discuti o tema, enquanto o século XIX trouxe a temática para o campo de estudo de ciências nascentes como a psicologia, a sociologia e a antropologia. Posteriormente, a interdisciplinaridade dos estudos culturais, nas ciências humanas e sociais, questionou a formação das identidades. Foi quando lingüistas e teóricos da comunicação somaram esforços, abordando o tema através de uma infinidade de métodos de análise, cunhando uma enorme gama de significados, fragmentando as pesquisas em volta da identidade nacional, étnica e social. Entretanto, a preocupação com as identidades é relativamente recente para os historiadores. A temática veio à tona somente no final do século XX, com o surgimento dos debates sobre a pós-modernidade e o multiculturalismo. Para a história existe uma vinculação estreita entre as identidades e a memória que os grupos mantêm de si mesmos.

Segundo André Lalande, a memória seria uma reminiscência do passado, uma leitura feita a partir daquilo que é almejado como tendo sido e não como realmente foi, espelhando uma representação que serve de sustentação a criação de identidades. Neste sentido, é obvio o interesse da história pela construção das identidades, já que o trabalho do historiador consiste em abordar a memória dos grupos como fonte. Na realidade, a história realiza um duplo movimento. Ao tentar entender a construção das identidades, estudando a memória, como afirmou Massimo Mastrogregori, expressa uma tradição de lembranças, ordenadas com o apoio de relatos e visões particularizadas. Por outro lado, forja uma memória coletiva que, não correspondendo exatamente como as coisas foram, na maior parte das vezes, legitima a ordem política e ideológica estabelecida e, simultaneamente, cria ou reforça identidades construídas.

Inserido neste contexto, no Brasil, ao mesmo tempo em que, recentemente, grupos de pesquisa surgiram nas universidades para tentar entender a formação das identidades, há décadas a história já tinha servido à construção de identidades que atendiam aos interesses dos grupos no poder, uma discussão também relevante dentro do âmbito da temática.

Seja como for, abordar as identidades, atreladas à história, tornou-se essencial não só para entender quem somos, como nos vemos e porque nos identificamos com referenciais específicos, os quais nem sempre correspondem as nossas origens concretas; como também promove a conscientização sobre a diversidade, auxiliando na compreensão do mundo contemporâneo.

O CONCEITO DE IDENTIDADE.

Muito antes da história demonstrar interesse pela questão das identidades, o contexto da formação dos Estados Nacionais, durante a passagem do feudalismo para a modernidade, fomentador do sentimento de pátria, iniciou os estudos em torno do conceito de identidade no século XVII.



Na filosofia ortodoxa européia, René Descartes, o pai do racionalismo, criou subsídios para que o tema se tornasse central nos estudos culturais. Ao concluir que a única coisa que não poderia duvidar era que existia enquanto substancia pensante, admitiu a idéia de sujeito autônomo, portanto, comportando uma identidade individual bem definida, isenta de influencias externas. Uma conceituação que passaria a ser dominante na psicologia e também um fundamento central do liberalismo.

A visão cartesiana de identidade despertou o questionamento de David Hume, um empirista que, no século XVIII, observou que os conteúdos da consciência incluíam imagens sensoriais externas ao sujeito. Assim, a identidade seria formada internamente através de impressões externas que reativam a memória, formando novas imagens e reformulando a consciência de si mesmo. Para Hume, conforme o individuo tivesse novas experiências, por meio do contato com outros, comporia novas memórias, alterando as lembranças antigas e o modo de perceber o mundo, isto porque sua identidade também sofreria alterações. O que conduziria ao conceito de identidade coletivamente construída, em oposição ao individualismo liberal de origem cartesiana.

O pensamento liberalista pressupunha a primazia do individuo, unido a sociedade por um contrato social. Um conceito que, a partir das idéias de Jean Jacques Rousseau, afirmava a sobreposição das individualidades sobre o coletivo. No final do século XIX, Emile Durkheim deu prosseguimento à contestação da identidade liberal, afirmando que a sociedade seria composta sim por indivíduos, mas não seria fruto destas individualidades cruzadas, pois, ao inverso, as identidades seriam produto da coletividade. Segundo esta concepção, nas sociedades pré-industriais, com nenhuma ou pouca especialização econômica, todos os membros da sociedade seriam similares em atitudes, valores e normas. Uma homogeneidade mantida pelo que Durkheim chamou de solidariedade mecânica, uma consciência coletiva sustentada por uma identidade única que suprime as individualidades através da punição dos sujeitos que se desviam das normas estabelecidas pelo grupo.

Em contraposição, nas sociedades industriais imperaria a solidariedade orgânica, uma complexa divisão de trabalho, exigindo que cada membro da sociedade seja um especialista, incapaz de suprir suas necessidades sem a cooperação do outro. Neste sentido, nas sociedades modernas não haveria mais necessidade de punição para os sujeitos desviantes, já que a coesão seria mantida pela própria estrutura social, a qual, por sua vez, seria garantida por uma identidade coletiva.

O que não significa que a sociedade contemporânea não seja individualista, muito pelo contrário, o alto nível de especialização geraria indivíduos com vidas e experiências distintas, com valores e atitudes que podem divergir, mas que, mesmo assim, possuem elementos agregadores e comuns, unificados em torno de identidades pertencentes se não a sociedade ao menos a determinados grupos.

A despeito da discussão sobre o conceito de identidade ter se estendido, passando por George Herbert Mead, Erving Goffman, Sigmund Freud e Jacques-Marie Émile Lacan, entre outros. No século XX, Michel Foucault reformulou sua definição. A partir de seus estudos sobre a exclusão dos insanos da sociedade, ele concluiu que a loucura é socialmente construída através de práticas variáveis historicamente re-inventadas, as quais dependem sempre do outro. Esta reformulação, somada ao questionamento do “eu” pelos estruturalistas e pós-estruturalistas, remeteu a uma identidade forjada coletivamente, embora construída também em oposição ao outro, abrindo espaço para a discussão teórica sobre grupos marginalizados e oprimidos, como homossexuais, negros ou mulheres.

Assim, no âmbito de uma identidade nacional, por exemplo, existiriam identidades regionais, étnicas e uma infinidade de outras variantes e subcategorias. Todas, social e historicamente formuladas, carecendo de estudos que abordassem tentativas de entendimento de sua configuração, principalmente, visando possibilitar a compreensão da consciência histórica e da construção das memórias.

IDENTIDADES E CONSCIÊNCIA HISTÓRICA.

Para Jörn Rüsen e Agnes Heller, a consciência histórica é uma constante antropológica, expressa um processo mental capaz de estabelecer linhas de ação.




Possibilita perceber a passagem do tempo da própria vida do individuo, de seu grupo e da humanidade. O sujeito atribui, através da sua consciência histórica, um sentido e um significado às mudanças, criando e recriando sua identidade frente ao outro. Este elemento organiza memórias, vivencias e valores. Articula o conhecimento histórico, uma opinião partilhada por teóricos como Ecléa Bosi, Michael Pollak e Miriam Sepúlveda dos Santos. Para os autores, a memória da qual a história se apropria para compor suas narrativas é produto de identidades construídas e, simultaneamente, reconfigura estas identidades. Portanto, a consciência histórica lança luzes sobre a constituição de saberes que mobilizam projeções coletivas e individuais, conjugando contextos vividos e imaginados. Fatores que interferem na maneira como os sujeitos elaboram significados, a partir da atribuição de sentido ao seu próprio tempo por meio de um vislumbre do passado.

Para Heller, esta conjuntura se forma porque o homem tem necessidade de responder sempre as mesmas questões básicas: “Quem somos, de onde viemos e para onde vamos”. Perguntas que englobam a elaboração de um conhecimento histórico e, a reboque, a manutenção ou transformação das identidades. Para a filosofa, a formação de uma consciência histórica que conduz a criação de uma identidade passaria por estágios, necessariamente não lineares, envolvendo a compreensão mitológica, com generalizações e particularismos acerca da origem identificada dos grupos, transformada em memória e decomposta pela ciência. O tempo seria eternizado e categorizado em narrativas de cunho cientifico pelos historiadores, os quais têm por base os documentos que expressam a consciência histórica daqueles que os produziram, adquirindo novos significados adaptados.

Entretanto, a identidade, implícita na consciência histórica dos sujeitos produtores da matéria-prima da história, as fontes, por imitação, tenderia a perpetuar-se nas reminiscências que adquirem novos significados, mas que também mantém pressupostos antigos, mitológicos e sem fundamentação cientifica concreta. O que não significa que deixe existir um direcionamento intencional da composição das identidades, já que, como lembrou o português José Machado Pais, este elemento termina permeando decisões políticas. Na realidade, a consciência histórica pode assumir características de um fenômeno coletivo, sendo forjada, interiorizada em processos culturais controlados pelos grupos hegemônicos. Partindo desta constatação, a consciência histórica seria um fenômeno individual, conectado com o coletivo, gerador das identidades e gerado por elementos mitológicos, estabelecendo uma relação dialética.

Por isto as identidades se destacam como aquilo que “pode nunca ter sido” e o que “nunca será”, apesar dos historiadores tratarem o tema como aquilo que “já foi” e o que “pretende ser”. A história estabelece sentido para o que é “agora”, categorizando identidades organizadas nas suas narrativas, operacionalizadas, consciente e inconscientemente, simplesmente sintetizadas.

O HISTORIADOR E A CONSTRUÇÃO DAS IDENTIDADES.

O historiador não é um observador do passado que permanece fora de seu próprio tempo, não é um individuo isento de influencias as mais diversas.

Antes, ele é fruto de seu próprio tempo, sendo contaminado por uma visão particularizada do passado, inclusive pelos referenciais de sua própria identidade. Toda análise histórica, obviamente, a partir do século XIX, sendo tecnicista, ao buscar uma abordagem profissional, termina sendo reflexo e sustentáculo da ideologia capitalista, perpetuando identidades que servem a manutenção do sistema. Talvez por este motivo, desde o século XIX, os limites da história sempre foram questionados. Dentro desta acepção, as identidades, debatidas pelos historiadores, não passam de uma construção imaginativa, uma criação ficcional da mente, individualizada mesmo quando partilhada e discutida, já que existe uma multiplicidade de interpretações.

A história seria, portanto, uma ficção de uma ficção ou uma ficção do fazer ficção, representação da identidade que quem produz as fontes e escreve o que se torna história oficial, em meio a uma luta pela prevalência de versões diferentes para o mesmo fato, cada qual simbolizando os interesses de um grupo.

CONCLUINDO.

O conceito de identidade, abordado por uma infinidade de saberes científicos diferentes, insere-se no modo como cada sujeito vê a si mesmo e a maneira como pretende que o outro o enxergue.

Serve aos vínculos que se estabelecem entre os indivíduos, agregando as pessoas em torno de grupos sociais menores ou mais amplos. No entanto, as identidades não passam de um sistema de representações que permitem a construção do “eu” através da observação do outro, ressaltando semelhanças ou diferenças. Exatamente por isto, os indivíduos terminam entendendo e desempenhando papéis sociais a luz da consciência histórica que possuem de sua identidade. Estabelecem relações e criam expectativas por meio de suas próprias referências, algo ligado, inclusive, as posturas etnocêntricas.

Acontece que os referenciais são moldados por um mecanismo complexo, englobando a memória, conduzindo os sujeitos a posicionarem-se social e politicamente, expressando opiniões sobre situações cotidianas, o casamento, a sexualidade, a moral, as artes, as leis e uma infinidade de outras questões.

Constituída como ciência, a história percebeu que toda identidade é uma construção histórica, não existindo de forma absoluta e nem tampouco isolada, sendo constituída em oposição ao outro. A identidade é forjada para distinguir as pessoas umas das outras e, simultaneamente, fortalecer laços no interior de grupos que se formaram para tentar sobrepor-se a outros grupos ou proteger-se da imposição ou submissão ao padrão hegemônico.

Ao trabalhar com as memórias individuais e coletivas, a história precisou necessariamente abordar as identidades. Ao fazê-lo, sem perceber, terminou integrando-se ao mecanismo de construção das identidades. Até porque, como defendeu Kathryn Woodward: história, memória e identidades são indissociáveis. É desta perspectiva que, estudando a formação das identidades, a história passou a entender melhor o papel da consciência histórica e da memória, mescladas a imaginação e outros fatores externos aos sujeitos e grupos, na criação de mitologias fundadoras de referenciais. Porém, poucos historiadores conseguiram perceber que, ao construir o saber histórico, acabaram criando, eles próprios novas, mitologias fundadoras das identidades. Esquecem que a história é subjetiva, repleta de espaços preenchidos pela imaginação daqueles que registraram as fontes e que os profissionais da história apenas fornecem uma dentre tantas outras interpretações.

No âmbito do mundo globalizado, em que o hibridismo enfraqueceu as identidades nacionais, ao invés de unificar, fragmentando e fortalecendo o ressurgimento de outras identidades, como o gênero, o étnico ou o regional. A discussão da temática tornou-se essencial para compreender a contemporaneidade. Destarte, antes de aceitar as conclusões já formuladas sobre o assunto, ao invés de acatar explicações prontas para a formação das identidades, seria pertinente rediscutir a contribuição da história, intencional ou não, na construção destas identidades. Estas tiveram uma nova configuração a partir de valores instituídos após o iluminismo e a Revolução Industrial e que, agora, renascem em uma sociedade de consumo repleta de contradições, cabendo a filosofia da história iniciar os debates.

PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO:

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

DAMATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à Antropologia Social. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

DESCARTES, René. “Discurso do Método” In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p.33-79.

DURKHEIM, Emile. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

FREUD, Sigmund. Obras completas. Buenos Aires: Editora Argentina, 2003.

FOUCAULT, Michel. História da Loucura. São Paulo: Perspectiva, 2004.

GOFFMAN, Erving. Representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 2006.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.

HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

HELLER, Agnes. Uma teoria da história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993.

HUME, David. Tratado da Natureza Humana. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

LACAN, Jacques-Marie Émile. O seminário – livro 16: de um outro ao outro. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

MASTROGREGORI, Massimo. “Historiografia e tradição das lembranças” In: A história escrita: teoria e história da historiografia. São Paulo: Contexto, 2006, p.65-93.

MEAD, George Herbert. Mind Self and Society from the Standpoint of a Social Behaviorist. Chicago: Chicago University, 1963.

MONTENEGRO, Antonio Torres. História oral e memória: a cultura popular revisitada. São Paulo: Contexto, 2003.

PAIS, José Machado. Consciência histórica e identidade: os jovens portugueses num contexto europeu. Oeiras: Celtas Editora, 1999.

PINSKY, Jaime. “Nação e ensino de história do Brasil” In: PINSKY, Jaime (org.). O ensino de história e a criação do fato. São Paulo: Contexto, 2004, p.11-22.

POLLAK, Michael. “Memória e identidade social” In: Estudos Históricos, v.5, n.10. Rio de Janeiro: 1992, p.200-212.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. “Do contrato Social” In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

RÜSEN, J. A. “Perda de sentido e construção de sentido no pensamento histórico na virada do milênio” In: História debates e tendências, v.1, n.1. Passo Fundo: dez, 2001, p.09-22.

SANTOS, Miriam Sepúlveda dos. “Sobre a autonomia das novas identidades coletivas: alguns problemas teóricos” In: Revista brasileira de Ciências Sociais, v.13, n.38. São Paulo: out. 1998.

SCOTT, Parry & ZARUR, George (orgs.). Identidade, fragmentação e diversidade na América Latina. Recife: Universitária UFPE, 2003.


Fonte:http://fabiopestanaramos.blogspot.com/2010/09/historia-e-identidades-uma-filosofia.html

Contato com o autor: paraentenderahistoria@hotmail.com







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Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 12/09, 2010, p.01-07.
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