Tião Serraia, o “Tio Chico” de Rolim de Moura: o jardineiro macabro do “progresso”.




“Se, no teu centro

um Paraíso não puderes encontrar,

não existe chance alguma de, algum dia,

nele entrar”

Angelus Silésius, místico medieval



1. Para quem vem da cidade de Novo Horizonte sentido centro da cidade de Rolim de Moura, em Rondônia, é obrigado a subir uma íngreme e extensa ladeira, geralmente debaixo d’um sol quente da moléstia dos cachorros, durante o demorado verão amazônico. Essa ladeira é parte do que os moradores paridos aqui chamam de Avenida 25 de Agosto. Como resido próximo as suas margens, no que os moradores já citados aqui chamam de “linha” [eufemismo para o termo “periferia da roça”], sou obrigado a subi-la sempre, diariamente, em direção a escola onde tenho que trabalhar. Durante essa sofrida subida, costumo sempre descansar nas sombras das poucas árvores que foram plantadas num trecho no seu canteiro central.
 
2. Essas poucas árvores plantadas são muito generosas. Brindam-nos sempre com prazerosas sombras. São Oásis, cantinhos refrigerados em meio à quentura típica das cidades da região norte do Brasil. Mesmo sendo uma região de grandes desmatamentos ocorridos, onde árvores foram substituídas por seres humanos e suas cidades, ela ainda é tratada como uma região de densas florestas que são quentes e úmidas. Todavia, apesar delas, a sensação é de estarmos sempre numa estufa gigante. Sem as sombras o cozimento a que estamos sujeito nesta parte do País seria mais devastador.
 
A "Foda" das árvores em Rolim de Moura..."
3. Num desses dias, vi trabalhadores da prefeitura podando as benditas árvores. Notei logo que não se tratavam de jardineiros, pela grosseria e violência com que as tratavam, mas de mercenários a serviço do Tio Chico. Seus verdadeiros servi-dores, capangas do progresso, que para proteger a fiação elétrica, que lhes serve de condutores, atropelam qualquer coisa que represente um obstáculo ao seu avanço. Pois é, o que assisti não pode jamais ser chamado de poda, mas sim de foda, porque o objetivo era mesmo proteger as árvores de concreto a despeito das de pau fornecidas pela natureza; se livrar das suas folhagens em prol das fiações que os postes sustentam como se não houvesse outros meios.

4. Passando bem ao lado desses jardineiros do progresso, eu lhes disse: “meu amigo: parece que vocês odeiam a sombra dessas árvores, não é?!”— “Sombra, é para quem tem dinheiro!” Respondeu um dos empregados do Tio Chico. Em outros termos: sombra é privilégio para alguns poucos mesmo nessa roça distante que pensa ser uma cidade grande nos confins desse país. O tonto que tentava domesticar as referidas árvores com seu serrote e facão não se dava conta que ele também não se inclua nessa perversa categoria social dos únicos que, segundo o mesmo, tem direito a ela: os endinheirados.




É assim que se "podam"as árvores em Rolim de Moura.

5. Na ficção dos programas televisivos, Tio Chico da família Adams é o “gênio” sádico dessa família. Um grande inventor. Porém, suas invenções sempre é uma forma de infligir dor e sofrimento a si mesmo e a quem quisesse fazer uso de suas parafernálias. Não era só a sua feiúra que assustavam as pessoas, mas seus gestos. Sempre com um riso macabro após testar em si mesmo cada um dos inventos aterrorizantes que saiam da sua cabeça careca. O roceiro que está prefeito lembra muito o Tio Chico não só na aparência, mas nos gestos. Ele não tem um jardineiro dentro de si, tem sim um feroz roceiro. E como tal age. Como prefeito, roça com mais vigor os jardins alheios. Daqueles que mais precisam das sombras que suas poucas árvores existentes podem, gratuitamente, dar. Mas, o que um escritor, como eu, pode fazer para isso evitar? Diz Rubem Alves, com razão: “O escritor tem amor, mas não tem poder. Mas o político tem”. Que os que lerem esse meu escrito possa comigo protestar. Cada um a sua maneira. Quem sabe o roceiro-mor que administra essa cidade possa se tocar?! Afinal, ele não é político?






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