DE PROFESSOR DE ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL À DESPROFESSOR DENTRO DA ESCOLA PÚBLICA



Pelo DesProf.Peixoto
01-Num domingo pela manhã desses do ano de 1989, há 22 anos, eu estava sentando num banco da Primeira Igreja Batista de Escada na zona da mata sul de Pernambuco, assistindo ao tradicional culto dominical. Eu era ainda um batistão, cuja ortodoxia, se encontrava em processo de liquefação. Eu e um grupo de amigos estávamos lá para assessorar o pastor recém ordenado [mugido] nos trabalhos que o mesmo planejava realizar durante os seus primeiros momentos de ministério [governo] eclesiástico. Nesse domingo, estávamos lá para sermos apresentados a Igreja. Durante a liturgia do culto, então, o pastor reverendo Adjair Alves, líder do grupo, durante a execução da liturgia do culto dominical fez as devidas apresentações formais. Todos, um a um foram, solenemente, apresentados. O digníssimo informou aos membros [sócios] da Igreja ali presente o nome e a profissão de cada um do grupo, eu fui o último a ser apresentado. Quando chegou a minha vez, o reverendo fez um pouco de suspense: foi até mais solene comigo que com os demais. Eu até pensei que o mesmo me comoveria com suas palavras. Então, com muita pompa, com sua proverbial e hilariante fala mansa disse: amada Igreja: eu vos apresento o professor Moisés Peixoto,  'professor de ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL! Acertei de fato. Ele me emocionou muuito! Nunca me senti tão alegremente escarnecido, caçoado e escroto com tão amável forma de ser apresentado como professor [de mentirinha]. Um, professor de E.B.D! Glup! Só me restou a cara de tacho mesmo! É claro que depois do culto fui motivo de “reverendíssimos” risos e galhofas por parte dele e do amigo PROFESSOR [de verdade] Jairo Bezerra de Sales com a reação desapontada que tive da “solene” apresentação que ele fez de mim para o pessoal dessa Igreja. Na época, eu fazia o curso de magistério, antigo curso “normalista”, estava cursando o 3º ano do segundo grau no Instituto de Educação de Pernambuco Escola Sylvio Rabelo na Avenida Mário Melo no Bairro de Santo Amaro no Recife. Mas, não ainda não havia sido mungido, ordenado, azeitado ou sacramentado como “PROFESSOR” de verdade. Ainda não dava aula profissionalmente, era tão simplesmente um leigo. Do ponto de vista da legislação que trata do assunto: nada mais justo. Porque no Brasil ninguém pode ser assalariado por aquilo que professa num espaço público ou privado sem ser reconhecido, isto é, “abençoado, pelo Estado. Pois, professor “de verdade” é um doador de aulas, subproduto do Estado. O que já é, por se mesmo, paradoxal: como se dar ou doar algo a dinheiro? Não seria mais apropriado afirmar que esse professor vende o que professa? Que o mesmo não dar aulas, mas, vende-as? Até por um precinho bem baratinho? Que vive as custa do que ele aprendeu a vender?
02- Curioso não? Viver daquilo que professa. Qual seria, portanto, a diferença entre o ofício de professor do ofício de pastor ou padre cristão? Ambos não vivem desse tipo de sacerdócio: o da pregação [aula]? Ora, há quem diga que professor é profissional, o sacerdote não. Que um é escolhe, outro é escolhido. Mas, não é isso que hoje vemos acontecer. O sacerdócio também é um ofício, uma profissão embora os pastores e padres camuflem tal situação afirmando que ambos foram chamados, foram escolhidos por seu deus e que não poderia recusar tão nobre e irresistível vocação. Muitos até se comparam a Moisés e os profetas bíblicos. E, dependendo da situação [que não são poucas] são melhores remunerados que os que escolhem viver do ofício de professor nos templos privados ou estatais da educação. O sacerdote religioso ainda tem a vantagem do amparo divino, o professor não. Este, para sua desgraça, depende só da misericórdia estatal ou do patrão privado da ocasião.
03- Professores, na sua maioria existente, são assalariados feitos muitos pastores e padres existentes entre nós que dependem de uma denominação ou ordem religiosa que lhes dar sustentação. A diferença é apenas espacial: os primeiros dependem do Estado ou de alguma empresa laica que vendem educação. Raros no Brasil são os professores profissionais liberais de fato. Que são patrões de si mesmo, que faz seu tempo, que escolhe seus alunos e trabalham como acham melhor. Seu limite são seus pagadores diretos pelos seus serviços. Sua renda depende, quase que somente, do sucesso do seu empreendimento pessoal. Diferentes são os inúmeros pregadores [professores] cristãos. Há mais profissionais liberais entre eles que entre os professores laicos que professam outras artes, além da religião. Neste sentido, os professores laicos são mais operários que os colegas que professam apenas os dogmas de sua dita vocação.
04- Mas, o Estado Moderno, desde o século 18, tal como o deus cristão também tem um incrível poder de sedução e tem pretensões típicas de qualquer deidade. Ele também chama de forma carismática e irresistível. Dispões de muitos meios persuasivos de recrutamento e de conversão. Não é a toa que muitos do que vivem do que professam, no fundo, bem no fundo, acreditam serem vocacionados para o exercício de tão “nobre” função. Não são poucos os que se comparam aos colegas sacerdotes religiosos. Dizendo-se serem professores por uma inexplicável vocação, mesmo que seja para penar a vida inteira pelo deserto da estupidez irracional comendo gafanhotos e mel silvestre como tal Batista, que também atende pelo primeiro nome de João.
05- Essa crença brasileira da nobreza dessa função [hoje] assalariada de professor é histórica: vem do tempo em que o Brasil nem sequer existia. Vem do tempo em que o Marques de Pombal governava Portugal e tentando promover ações laicas, separadas da religião, fez com que os Jesuítas parassem de fazer o que, há mais de dois séculos faziam: professar suas crenças e conhecimentos por aqui na colônia como bem queria. No seu lugar o professor régio surgia. Nem sempre era pago com certa regularidade, mas as pompas típicas da nobreza da qual seu ofício fazia parte, era o que lhes bastava para fazer o que o Estado lhes exigia: não como um profissional, mas como membro de uma corte parasita das pompas que tinha.
06-Os séculos se passaram, a história caminhou, mas, as práticas essenciais que definem hoje o professor nada ou pouco se alteraram. Não importa a pedagogia por ele abraçada, sua praxe, na essência, nada se alterou. Continua, basicamente, sendo alguém que professa uma dada crença para multidões de alunos a sua frente testemunhando sua fala para o qual se formou, se especializou. Apenas trocou deus de posição colocando o Estado em seu lugar; o único que pode legitimar seu ofício de viver à custa do que professa nas escolas publica ou privadas e ser chamado, portanto, de professor.
07-Mas, nem todos sempre vestiram literalmente essa camisa de força criada pelo Estado com o nome de educação, escola pública ou de política educacional. Sempre houve alguns que rejeitaram e ainda há quem rejeita o figuro oficial, estatal dado ao ofício que os mesmos tentam realizar de forma diferente, ácida ou crítica no interior das escolas, especialmente, as públicas. Dentro do próprio sistema. Existem os que enxergam a nobreza justamente nisso: no nadar contra a maré do sistema, no agir virótico e no se recusar a pensar como rebanho, como ovelha. Há inclusive quem se recusa agir como categoria social, porque as maiorias que abraçaram a definição oficial e sacerdotal professor sempre constituíram uma categoria sem vergonha que professam os credos do estado.
08- Apesar de ainda usarem um termo obsoleto e desgastado como é o nome professor. Isto porque é assim que o estado denomina quem vive desse trabalho, independente do que pensa a respeito e de como tentam realizá-lo. É assim que a sociedade foi acostumada a vê-los e a tratá-los por séculos e nem tão cedo vai deixá-los de assim agir. Por isso a confusão, a mistura de sentidos, a polissemia, a polifonia, a pasteurização e a vulgarização social desse termo. Como se todos fossem o mesmo professor: aquele que dá aula; auleiros que, na sua grande maioria, vivem de salário. Como se entre esse atual cardume, não houvesse individualidades, particularidades e alteridades. Por isso o uso ainda dos velhos jargões já desgastados pelo tempo e esvaziados pela história a eles relacionados, a saber: Todos “são trabalhadores da educação”; “O sindicato somos nós!”; Todos ainda são da “categoria”; “coleguinhas” ou da mesma “classe social”.
09-Eu, por muitos anos vesti essa camisa de força oficial e social. Fui seduzido primeiro pelo cristianismo evangelical. Foi dentro de um rebanho, digo, de uma Igreja onde aprendi a professar a fé com eloqüência no intuito de persuadir os outros a fazem o mesmo que eu: a ser, praticamente, uma reprodução de mim mesmo. Fizeram-me, portanto, um professor. Catequético, missionário, sacerdotal ou como diz Paulo Freire: bancário, não importa, fui feito professor. De início tentando ensinar aos alunos da E.B.D, da Escola Bíblica Dominical nas Igrejas Batistas que participei durante anos. Depois, como profissional, na rede pública de ensino. Proferindo com a mesma fé e ardor as verdades, agora laicas, do estado, do sistema aos alunos, “ávidos pelo o conhecimento”.
10-Mas há histórias que ensinam que é de dentro das Igrejas que saem os hereges. São elas que os inventam, paradoxalmente, são as próprias Instituições religiosas que os produzem. Da mesma forma ocorre com o Estado. Ele inventou o professor profissional, ele é quem inventou e popularizou esse substantivo; ele é quem lhes dar a formação que tem; é o estado quem recruta e quem o controla. Logo, é de dentro de suas entranhas, de dentro de sua ortodoxia que surge o seu avesso, a heterodoxia e a heteropraxia. É de suas contradições que surgem seus heréticos, nascem o que chamo de desprofessor. Ser um desprofessor é tentar ser e, quando pode, sempre ser, a antítese do professor convencional ou convencionado. Ele nunca é em sua plenitude, mas, está sendo em meio ao instituído. É o bode que se recusa a ser ovelha; que transcende a manada. Que se recusa a continuar balindo. É a águia que se descobre dentro da galinha que o estado quer que ele seja e que se arrisca a voar. Já se passaram 22 anos do fato ocorrido na Primeira Igreja Batista em Escada e hoje faço uma leitura diferente dessa versão do por nós foi vivido: o pastor reverendo Adjair Alves da época só cometeu um equívoco naquela ocasião: a ofensa não estava na intenção de brincar comigo, mas quando nos apresentou como professores, independente, se o Jairo Bezerra de Sales era profissional de fato e eu não. Sua ofensa foi, indiretamente, dizer para aquela Igreja que estávamos lá para fazer justamente o que ela estava esperando que nós fizéssemos: que professássemos a fé. Ainda bem, mesmo anos depois de eu até ter me profissionalizado, virado um professor de escola pública, eu ter acordado desse pesadelo. Ter acordado em mim um desprofessor. Talvez, seja por isso, que o dia 15 de outubro eu não tenha nada a comemorar.
 *Texto construído pensando nesse dia instituído de dia dos professores: 15 de outubro. Eca!
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