INESQUECÍVEL VANZOLINI!!!



Jô Soares já foi grande humorista, mas, como apresentador de  talk show, não chega nem aos pés do  Silveira Sampaio de meio século atrás. 

Não sei se isto advém de falta de competência ou do Jô se direcionar para um público intelectualmente muito inferior ao que SS atingia; ou seja, se ele é superficial por opção ou para satisfazer aos videotas. 

Mas, não suporto que jamais lhe ocorra a pergunta mais interessante e inteligente que teria para fazer ao entrevistado. Deixa-nos com aquela sensação  de que faltou tempero na comida...

Foi no SS Show que fiquei conhecendo o grande Paulo Vanzolini (1924-2013), mais uma perda doída de abril, mês que invariavelmente me evoca o pior  dia da mentira  da nossa História, quando perdemos a liberdade...

A entrevista ocorreu lá pelos meados dos anos 60 e foi ótima, como sempre. 

Fiquei surpreso ao saber que um eminente homem de ciências era autor de verdadeiras pérolas da MPB. Eu gostava, principalmente, de "Volta por cima", que chegara a tocar muito nas rádios (logo adiante, ela se completaria às mil maravilhas com a obra-prima de Glauber Rocha, O dragão da maldade contra o santo guerreiro, destacando um dos trechos culminantes do filme). 

Foi também adiante que fiquei conhecendo e gostando de outros clássicos de Vanzolini, como "Ronda", "Chorava no meio da rua", "Napoleão" e "Praça Clóvis". Além, claro, do "Samba erudito", que poderia até servir-lhe como cartão de visita musical: nenhum erudito conseguiu, jamais, soar tão espontâneo como sambista!

Mas, voltemos  àquele longínquo SS Show. Lá pelas tantas, Vanzolini contou a história da "Capoeira do Arnaldo" (clique aqui para ver o vídeo). Ele costumava terminar suas noites na boate Jogral, do amigo e também compositor Luís Carlos Paraná. E foi desafiado por outro amigo, chamado Arnaldo, a criar uma música com utilização perfeita de jargão regional. De estalo, Vanzolini compôs sua inspiradíssima capoeira. 

Foi interpretada no programa do Silveira Sampaio por Luís Carlos Paraná, que estava acompanhando Vanzolini. Este, entretanto, ressalvou que, como a fizera para presentear  um amigo, não a disponibilizaria para lançamento em disco. Amei a música e detestei saber que nunca mais a escutaria de novo. 

Lá por 1973, contudo, ao passar por um  sebo  do centro da cidade, percebi, maravilhado, que a música tocada na vitrola era a "Capoeira do Arnaldo"! 

Ignorava que, certamente atendendo aos apelos gerais, Vanzolini acabara permitindo sua gravação. Comprei e toquei até o compacto ficar riscado.

De tanto ouvir, decorei a (longa) letra inteirinha. E em sentido figurado, não literal, sempre encarei a última estrofe  como um resumo da minha trajetória:
"Eu sai da minha terra
Por ter sina viageira
Cum dois meses de viagem
Eu vivi uma vida inteira
Sai bravo, cheguei manso
Macho da mesma maneira
Estrada foi boa mestra
Me deu lição verdadeira
Coragem num 'tá no grito
Nem riqueza na algibeira
E os pecado de domingo
Quem paga é segunda-feira" 
"Na boca da noite", parceria com Toquinho, é outra canção de beleza cristalina, que me tocou profundamente. Tinha tudo a ver com aquela época em que nossos amores eram necessariamente fugazes, mesmo porque não sabíamos que horrores poderiam nos atingir nas próximas horas. Embora não fosse esta a intenção de Vanzolini, foi o que então significou para mim esta pungente estrofe: 
"Gente da nossa estampa 
não pede juras nem faz, 
Ama e passa e não demonstra 
sua guerra, sua paz 
Quando o galo me chamou, 
eu parti sem olhar pra trás 
Porque, morena, eu sabia, 
se olhasse, não conseguia 
Sair dali nunca mais" 
Por último, quero deixar um registro sobre a importância de Vanzolini como zoólogo. Mas, como não é nem nunca será minha praia, pegarei uma carona num excelente artigo de Marcelo Leite, editor de Opinião da Folha de S. Paulo:
"A especialidade de Paulo Emílio Vanzolini, na sua identidade menos conhecida de pesquisador, eram cobras e lagartos. O afiado zoólogo foi um dos maiores herpetologistas do Brasil e teve participação direta em momentos cruciais da ciência nacional.
A pesquisa biológica, como um lagarto, caminha pela natureza impulsionada sobre dois pés por vez: teóricos e sistematizadores, de um lado, naturalistas e taxonomistas, de outro. Vanzolini serpenteava com destreza entre os dois campos, aliando como poucos as faculdades de observador detalhista e de generalizador arguto.
Na descrição de espécies de répteis e seus hábitos ecológicos, avançou sobre terreno quase virgem, aplicando com afinco a formação obtida na Faculdade de Medicina da USP e no doutorado na Universidade Harvard (EUA). Foi fundamental para o Museu de Zoologia da USP, que amou e dirigiu por muitos anos.
(...) Numa de suas incursões pelo rio Paraná, compôs com Antônio Xandó uma estrofe complementar para "Cuitelinho" (espécie de beija-flor), entoada por um pescador. Estão ali talvez os versos mais formosos de uma das mais bonitas melodias do cancioneiro nacional: "A tua saudade corta como aço de navalha / O coração fica aflito, bate uma, a outra falha / E os olhos se enchem d'água, que até a vista se atrapalha"".
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