Para onde caminham as greves do serviço público de Rondônia, especialmente a da educação.



Prof.Peixoto*1

            Um dia após muito professores terem entrado em greve, uma mãe faltou o trabalho e foi à escola em que seus filhos estudam saber por que eles voltaram para casa na manhã da quarta feira do dia 15. Chegando lá topou com a secretaria funcionando normalmente, viu as merendeiras na cozinha e o diretor olhando fixamente para o monitor de tevê na sala dele registrando quem estava vindo ou não trabalhar e se havia movimento numa boca de fumo em frente da escola. Mal ela entrou na sala dele perguntou num tom debochado:
—“Ora bolas, senhor diretor, greve de novo? Todo ano é a mesma coisa!” Eu trabalho na Hidroelétrica de Santo Antônio o dia inteiro. Vou de busão, sou mãe solteira, minhas três crianças ficam sozinhas em casa até eu voltar. Deixo a mais velha cuidando dos mais novos e uma vizinha de olho. Mas mesmo assim, né seu diretor, trabalho muito preocupada com eles. Quando não tem greve, elas ficam apenas as tardes sozinhas, brincando. “Quando é que as aulas voltarão mesmo em? Afinal, a merenda que dão na tal ‘educação de tempo esticado’ faz falta né?”.
Diretor: — “Sei não”! Mas, de forma meio cínica, ainda diz: — “A senhora, se quiser, pode deixá-las no Programa Mais Educação no contra turno, à tarde. Este ainda não parou!”.
Mãe: — “Por quê?”.
Diretor: — “Nesse programa só trabalham estagiários e é um atendimento terceirizado pelo Governo do Estado, pago com recurso federal. Eles recebem R$ 300,00 por mês para virem duas a três vezes por semana guardar, distrair e ocupar os alunos com aulas de reforço. E são vários fazendo esse bico aqui na escola! E ainda a merenda é garantida!”.
Mãe: — “Ora, se com greve ou não o salário nunca é o suficiente e o ensino é sempre uma merda: para que eu mandar meus filhos para essa tal ‘mais educação’? É melhor que fique em casa, é melhor!”.
Diretor: — “Para encher o bucho com a merenda senhora!”
Mãe: — “Ah tá... Diretor, quando as aulas vão terminar? Pois penso em viajar para o interior no final de dezembro!”.
Diretor: — “Os professores também. Alguns para o exterior e outros para seu Estado natal. Há dirigentes sindicais que vão assistir aos jogos da copa do Mundo. Então fique tranqüila, esta greve é broxa, logo amolece! O Governo só pega dinheiro emprestado do BNDS para os amigos que são CDS e para fazer obras no interior para garantir sua reeleição no ano que vem e sabe que com aumento ou sem aumento salarial, os professores grevistas continuarão a ser como sempre foram: conservadores, tradicionais! Os dirigentes sindicais só estão cumprindo tabela e tirando o seu da reta e ainda dando uma força para certo vereador conseguir se eleger deputado estadual!”.

            Ouvindo isso, a mãe saiu da escola pelo portão do estacionamento dos professores, onde só havia o automóvel dos diretores. O pátio estava quase vazio, Muitos professores haviam ido para a greve de carro próprio, é claro! Lá, estacionam perto dos carros dos sindicalistas, pois sindicalista que é sindicalista de verdade, não usa veículo próprio, mas do sindicato! Na Praça das Três Caixas D’Água no centro da cidade se amontoaram com os colegas grevistas. A mãe, por sua vez, vai embora arretada, falando consigo mesma: “— Oxe! Todos os anos é essa mesma porcaria, todos os anos os professores fazem greve! E a droga desse governo ainda vive mentindo dizendo que a educação está de cara nova e é de tempo integral. Mas, as escolas só estão de pintura nova. Por dentro, elas continuam sendo tão ruim como sempre foram, apenas de tempo esticado! A única vantagem é a merenda. Que nenhum pobre dispensa!”.
Esse diálogo introdutório é uma pequena representação de uma conseqüência da banalização dos caminhos trilhados pelo Ensino Público administrado pelo atual governo e do sindicalismo que se faz atualmente em Rondônia não importando o sindicato envolvido. Além da greve que os dirigentes do SINTERO estão conduzindo, há outras categorias do funcionalismo público em greve também no Estado. Todas desencadeadas por motivos justos e escusos ao mesmo tempo, feita de forma quase sempre igual e amadora por dirigentes e dirigidos. Greves também provocadas pela falta de habilidade e de honestidade do Governo Estadual. Greves cujo, provável desfecho, ninguém tem certeza absoluta, apenas palpites. Se conseguirmos entender um pouco os caminhos trilhados pelo Governo do Estado e pelas greves que estão ocorrendo no serviço público, talvez, possamos imaginar como tudo isso vai acabar. Para começar, qual tem sido o caminho trilhado pelo governo?

“Os operários não devem superestimar o resultado final dessa luta cotidiana. Não podem esquecer que lutam contra os efeitos e não contra as causas desses efeitos...”. Giovanni Alves, Limites do sindicalismo - Marx, Engels e a crítica da economia política.

            Os sindicalistas nem se deram conta, mas durante a sua campanha eleitoral, o candidato Confúcio Moura defendeu qual seria o modelo de administração pública que ele adotaria quando chegasse ao poder. Um modelo que: “valoriza-se a profissionalização do Estado, cria-se programas de reconhecimento do mérito, substituindo ao máximo os cargos comissionados por profissionais concursados e, sobretudo, promove-se a despolitização de setores como educação, saúde, meio ambiente e segurança pública”. Confúcio foi eleito e aos trancos e barrancos, vem trilhando por esse caminho. Enganam-se quem pensa que o modelo de gestão proposto é original. Nada disso! Já é adotado em outros Estados. Historicamente, Rondônia sempre importou mão de obra. Mas com Confúcio, passaria a importar modelos de gestão pública também. Ele desperdiçou metade do seu mandato juntando pedaços de modelos aqui, ali e acolá, fazendo da sua gestão um Frankenstein, cujas conseqüências já começamos a sentir com as greves que vem ocorrendo no serviço público.
Na educação não tem sido diferente, este governo foi buscar fora modelos “eficazes” para geri-la. Enquanto isso o SINTERO bebia na mesma taça dele comemorando duas panacéias: a aprovação da Lei que permite a eleição direta para os diretores das Escolas Públicas e a aprovação do Plano de Carreira, Cargos e Salário. O que o SINTERO sabia, mas não explicou aos seus filiados eram os efeitos colaterais dessas “medidas”: a exigência de mais produtividade sem aumento de salário e a absorção acrítica de todos os projetos do MEC que visam esticar o tempo de permanência dos alunos na escola como, o projeto “escola de tempo integral” e o “mais educação”. Cabendo apenas ao Governador dar um nome próprio: “projeto Guaporé de Ensino Integral” para parecer que são obras de sua mão e dar um jeito de realizar todos eles rapidamente.
Diante dessa situação, as greves do serviço público caminham para um conformismo de sempre. Suas lideranças não estão interessadas em mudar à forma de gestão do Governo, mas, com seu futuro político. Por isso lutam apenas para conquistar maiores salário para seus prováveis eleitores: os servidores públicos! O restante das reivindicações é puro ornamento de pauta! É ficção! Fatos que banalizam as greves especialmente as da educação e atrai para si muita antipatia social. As alcatéias de sindicalistas sabem disso, por isso, são oportunistas ao fingirem preocupação com outros problemas vividos dia-a-dia pelo restante da população como, por exemplo, as obras inacabadas da Prefeitura. Se tivessem prestado mais atenção no discurso do candidato Confúcio antes dele virar governador, saberiam que a luta realmente eficaz seria aquela focada em combater seu modelo de administração pública. O salário justo seria mera conseqüência. Agora é tarde! A única luz no fim do túnel é da Isabel Luz. As greves terão sucesso, porém, apenas para os chacais do sindicalismo cutista.

*1 Historiador formado pela UFRO/UNIR em 1997 e professor de História, Sociologia e Filosofia da Rede Pública de ensino desde 1990. Atualmente é readaptado, vítima de assédio Moral e um dos autores do Blog do Desprof.Peixoto, cujo link é: http://moisespeixoto.blogspot.com

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