O dia em que desfiz 46 anos à moda do Rubem Alves



Uma simples paráfrase...

MINHA FORMAÇÃO histórica impõe-me o uso preciso das palavras porque as palavras devem revelar o ser. E é assim, usando de forma precisa as palavras, comunico aos meus leitores que hoje, dia 01 de julho, eu desfiz 46 anos... Haverá leitores que se apressarão a corrigir meu uso estranho, nunca visto, da palavra "desfazer", atribuindo-o, quem sabe, a um indício de um futuro mal de Alzheimer. Será? Todo mundo sabe que, para se anunciar um aniversário, o certo é dizer "fiz" tantos anos. No meu caso, "fiz" 46 anos...
Mas o verbo "fazer" sugere algo que aumenta; um crescimento do ser, o amadurecimento: o artista e o artesão "fazem"... Mas, que ser aumenta com a passagem do tempo, esse monstro que devora os seus filhos e a se mesmo? O que aumenta é o vazio, a solidão. Profundo deserto toma conta da minha mente. Esses anos que o aniversariante distraído anuncia como anos que ele fez são, precisamente, os anos que ele desfez, o tempo que já passou, que deixou de ser, os anos que o tempo devorou: história! Os anos se desfaz tanto como o professor desprofessa...

Por isso acho um equívoco filosófico perguntar a alguém: "Quantos anos você tem?". O certo seria perguntar "quantos anos você não tem?". E ela responderia "não tenho 15 anos", "não tenho 18 anos". Porque esse número de anos indica precisamente os anos que ela não tem mais. Nos aniversários, então, a maneira correta de se dirigir ao aniversariante é perguntando-lhe "quantos anos você está desfazendo hoje?".

Com base nessas reflexões filosóficas acho extremamente estranho e mesmo de mau gosto esse costume de o aniversariante soprar as velinhas acessas para que elas se reduzam a um pavio negro retorcido. Aí, nesse momento, todos gritam e riem de alegria e cantam o "Parabéns pra você", em louvor a essa "data querida..." Pura ficção! Puro ritual!

Bachelard, no seu delicadíssimo livro "A Chama de uma Vela", que nunca será best-seller, nos lembra que uma vela que queima é uma metáfora da existência humana. Há alguma coisa de trágico na vela que queima: para iluminar, ela tem que morrer um pouco. Por isso ela chora, e suas lágrimas escorrem sobre o seu corpo sob a forma de estrias de cera. Hoje, morre um pouco mais daquele Peixoto, Moisés Peixoto, que permeia a memória de alguns e que virou esquecimento de muitos. Só não sei, se brilho tanto como brilha a vela que se desfaz...
Uma vela que se desfaz, que se apaga é uma vela que morre. Algumas velas se consomem todas, morrem de pé, têm de morrer porque a cera já se chorou toda. Outras morrem antes da hora - elas não queriam morrer-, mas veio o vento e a chama se foi. As velinhas acesas fincadas no bolo não querem morrer. Elas vão ser assassinadas por um sopro. O sopro que apaga as velas é o sopro que apaga a vida... Essa tem sido a minha angústia: serei acesso de novo pela brisa emitida por aqueles que gostam de mim ou apagado com um sopro da indiferença daqueles que me cercam?

Por isso não entendo os risos, as palmas e a alegria que se segue ao sopro que apaga as velas. Uma vela que se apaga é um sol que se põe, disse Bachelard. E todo pôr-do-sol é triste... É nostálgico! Uma vela que se apaga anuncia um crepúsculo. Por isso eu prefiro um ritual diferente, ritual que é uma invocação. Eu acendo uma vela pedindo aos deuses que me deem muitos anos a mais de vida, esses anos que se seguirão, que são o único tempo que realmente possuo...

Rubem Alves assim fez, acendeu uma vela, seus amigos à sua volta. Que coisa boa é ter amigos, especialmente quando o crepúsculo e a noite se anunciam! Que coisa ruim não amigos para fazer isso! O crepúsculo vem e você está só, distante e esquecido. A alegria não vem lhe fazer companhia. Mas, mantenho a esperança dela chegar, ao menos em cima da hora, de surpresa...

Concordo com ele quando diz que “a vida humana não se mede nem por batidas cardíacas nem por ondas cerebrais. Somos humanos, permanecemos humanos enquanto estiver acesa em nós a esperança da alegria. Desfeita a esperança da alegria, a vela se apaga e a vida perde o sentido”. Por enquanto, continuo esperando, esperando, esperando...; ainda sinto uma brisa no meu cangote.

DesProf. Peixoto
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