SÁBADO, NA BIENAL: O TRIBUTO DE UMA FILHA CUJO PAI FOI SUBMETIDO A TRIBUNAL REVOLUCIONÁRIO.

Por Celso Lungaretti
Quando Adriana Tanese Nogueira começou a escrever um livro sobre a corajosa ajuda que seu pai prestou à Vanguarda Popular Revolucionária no pior momento da ditadura militar, o preço que ele pagou por sua disposição sincera de contribuir para a resistência e como sua desdita afetou os entes queridos, era natural que me contatasse, pois os sites ultradireitistas me citavam como um dos três membros do tribunal revolucionário que julgou Antônio Silva Nogueira Filho, juntamente com Ladislas Dowbor e Carlos Alberto Soares de Freitas.

Era falso. Eu não chegara sequer a ser informado do episódio, que certamente foi encaminhado em nível de Comando Nacional, já que nunca veio à baila nas reuniões do Comando Estadual de São Paulo, do qual eu fazia parte.

Foi só em 2004 ou 2005 que, dando uma olhada no que aparecia quando teclava meu nome na busca do Google, fiquei sabendo que me imputavam tal papel.  E não estranhei, porque os Ternumas da vida também me davam como autor de um comunicado da VPR que jamais redigi --para minha irritação, pois não só era mentiroso, como pessimamente escrito, com erros que nem no ginásio eu cometia. 

Expliquei à Adriana que a rede virtual fascista era abastecida com informações dos órgãos de repressão --os tais arquivos secretos que o governo nunca foi capaz de localizar. Evidentemente, os torturadores conservaram consigo boa parte dos registros emporcalhados de sangue de interrogatórios dos DOI-Codi's, Dops, etc., utilizando-os depois para produzirem a interpretação inquisitorial da História

E, como era mais cômodo para os torturados confirmarem as suposições dos torturadores quando se tratava de assunto de menor importância, alguém deve ter relacionado meu nome ao tal julgamento, ou por não saber quem realmente dele participou, ou porque não quisesse identificar os reais participantes.

Abri portas e indiquei caminhos para que a Adriana pudesse levar a bom termo sua empreitada, superando a dificuldade natural de tentar apurar, desde os EUA, algo que aconteceu aqui. E acompanhei, durante certo tempo, seu labor de ir escrevendo e tornando pública sua obra, capítulo por capítulo, num blogue que criou.especialmente para tal finalidade.

Depois, o Caso Battisti me absorveu tanto que perdi o hábito de visitar o blogue dela. Daí a minha agradável surpresa com o livro resultante, de 740 páginas, dividido em dois volumes: Acorda, amor (Editora Biblioteca 24 horas, 2014), que será lançado na Bienal Internacional do Livro amanhã (sábado, 30), entre 12 e 14 horas, no estande F698.

Como passei a vida inteira tentando melhorar minha carpintaria de textos, é sempre gratificante para mim ler obras com narrativa fluente e empolgante como a da Adriana, cuja formação psicanalítica ajuda muito a desenvolver o lado humano dos personagens. Infelizmente, muitos livros sobre os anos de chumbo são áridos e de difícil compreensão para os leigos, afugentando leitores.

Conheço bem demais as agruras e sofrimento das famílias dos que lutamos contra a ditadura, então este lado de Acorda, amor não me surpreendeu. Mas, a dramaticidade e o horror de certas situações deverá calar fundo em quem veio depois de nós e não está familiarizado com tais vias crucis.
Eremias: retalhado com 35 tiros.

Para mim, são lembranças dolorosas. Não gosto nem de pensar que meus saudosos pais foram despertados de madrugada por uma avalanche de bárbaros que, depois de virarem a casa do avesso, ainda tiveram a petulância de pedir que me aconselhassem a rendição, pois só com a ajuda deles eu escaparia com vida. Meu pai, homem que nunca gostou de correr riscos desnecessários, daquela vez não se conteve: "E é para ajudar meu filho que vocês estão aqui com toda essa artilharia pesada?". Quase o levaram preso.

Assim como foi intimidado o pai do meu amigo e companheiro Eremias Delizoicov, retalhado com 35 balaços pelos gorilas da PE da Vila Militar, aos 18 anos de idade (vide aqui). Como a imprensa noticiara inicialmente a morte de outro militante --a repressão só conseguiu identificá-lo pelas digitais, a tal ponto o havia desfigurado!--, o pobre homem ansiava desesperadamente por ver o corpo e tirar dúvidas. 

Até isto lhe foi negado; ameaçaram-no de prisão, se insistisse, Como consequência, o velho casal continuou alimentando por muito tempo a esperança de que o falecido fosse mesmo José Araujo Nobrega, e não seu amado filho. Duas vezes passei horas ouvindo pacientemente suas hipóteses fantasiosas, sem saber se seria melhor desmenti-las ou deixá-los sonhando que o Eremias estaria são e salvo no exterior. 

UM EPISÓDIO CONSTRANGEDOR, MAS QUE DEVE
SER CONHECIDO, POIS DEIXOU LIÇÕES VALIOSAS.

Então, o que mais me interessou no livro foi mesmo a parte referente ao tribunal revolucionário. Para não estragar o prazer dos possíveis leitores, evitarei antecipar o desfecho (podem continuar lendo sem receios...).
A lição de Rosa: "A verdade é revolucionária".

Apenas informarei que Adriana, como eu, não vilifica quem cometeu erros em circunstâncias tão extremas. Como eu, ela ressalta a justeza da luta e tenta compreender quem foi zeloso demais ou traído pelos nervos.

Esforçávamo-nos  para manter a chama acesa apesar da extrema desigualdade de forças. Não havia semana em que não ficássemos sabendo da morte ou prisão (leia-se torturas bestiais) de companheiros próximos ou, mesmo distantes, igualmente estimados. As confissões arrancadas a ferro e fogo, bem como a faina incansável de espiões, faziam nossos melhores projetos ruírem como castelos de cartas. Por mais que tentássemos nos iludir, lá no fundo percebíamos que nos encaminhávamos para a derrota e, provavelmente, para a morte.

Neste contexto, aliado que manifestasse o desejo de sair da Organização era logo visto como um traidor em potencial. Se já não acreditava na causa, como conseguiria resistir às torturas? Se estaria descontatado, quanto tempo levaria para sua eventual prisão chegar ao conhecimento da O.? Quantos prejuízos ele poderia causar nesse intervalo, antes de as medidas defensivas começarem a ser tomadas?

Recuso-me a acreditar que qualquer um dos meus companheiros --aqueles seres humanos capazes de assumir riscos tão extremos em nome de ideais generosos e solidários!-- raciocinasse, cinicamente, que "o Nogueira nada fez de errado, mas só ficaremos tranquilos quando ele se tornar um arquivo morto".

Contudo, em meio à compreensível paranoia que grassava entre nós (espiões existiam sim, começando pelo cabo Anselmo), alguém deixou a imaginação correr solta e acabou tomando vagas suspeitas como provas irrefutáveis de que o Nogueira  estaria trocando de lado. E um tribunal revolucionário acabou sendo constituído.

Por último: o episódio encerra muitas lições valiosas para todos os que travam o bom combate, no sentido de que tais erros jamais sejam cometidos novamente. Então, mesmo sendo constrangedor para nós, deve ser encarado e discutido, sem medo do uso demagógico que os detratores da luta armada possam dele fazer.

Temos de ser melhores do que essa gente, guiando-nos pela afirmação lapidar de Rosa Luxemburgo: "A verdade é revolucionária". O outro lado tudo faz para esconder seus esqueletos nos armários --e eles eram tantos, e foi tão terrível o martírio infligido a nossos companheiros! Cabe-nos mostrar que também nisto somos infinitamente superiores a eles, em termos morais.

Não há equivalência ou igualação possível entre a regra e a exceção. Nem motivo para escondermos debaixo do tapete o que ocorreu, mas gostaríamos que não tivesse ocorrido. Nenhuma luta de resistência à tirania é isenta de enganos e excessos, mas estes devem ser avaliados com pesos diferentes: os idealistas têm direito à compreensão, enquanto os déspotas e seus esbirros só merecem o opróbrio.

"...nós, que queríamos preparar o terreno para a amizade, não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos. Mas vocês, quando chegar o tempo em que o homem seja amigo do homem, pensem em nós com um pouco de compreensão." (Brecht)

DEPOIMENTO DA AUTORA
"VOU ABRIR A MINHA VOZ E CONTAR MINHA VERDADE. 
NÃO QUERO MANTER ESCONDIDA UMA PARTE DE MIM" 

"Um dia saiu um artigo sobre mim num jornal local [ela mora e trabalha nos EUA]. No final de minha apresentação, após citar as minhas diversas atividades, o jornalista deu algumas referências biográficas. Quando li o artigo meu coração descompassou. Foi citada uma frase que eu mesma escrevi: 'Filha de mãe italiana imigrante e de pai brasileiro revolucionário', acrescentada pela informação que meu pai pertencia ao grupo de Carlos Lamarca.
Adriana: nada do que se envergonhar.

Gelei. Sim, eu tinha dito isso, mas uma coisa é você comentar uma coisa dessas com alguém, outra é você ler suas palavras numa folha de jornal. Senti-me exposta. Fiquei com medo. Mas dissimulei comigo mesma. Estava acostumada a deixar passar, disfarçar, conviver com a história colocando-a de lado.

Ao longo daquele dia, pensamentos soltos atravessaram minha mente. Aquela era uma referência histórica, algo conhecido que explicitamente revelava a atividade política de meu pai no passado. No passado.

Mas será que era passado? Não na minha alma. O medo, que por tanto tempo dominou nossas vidas e que estava aparentemente esquecido e sonolento num canto, acordou. Apesar de ter tentado 'não pensar' o dia todo e 'racionalizar', passei a noite assustadíssima. Não consegui dormir e tive um pesadelo.

Eu vou contar essa história porque não quero viver sob o constrangimento da vergonha. Uma história que me provoca pesadelos quarenta anos depois é uma história que precisa ser contada. Quero regurgitar o que vivemos, devolver ao mundo o que ao mundo pertence. Não vou deixar essa experiência trancada dentro do peito, no cárcere da dúvida e do ridículo. Não vou ser cúmplice do sistema que demonizou os que contra ele resistiram, apesar do absurdo desequilíbrio de forças.

Vou contar essa história para levantar uma bandeira contra a avalanche massificadora da crença que sustenta que bom é quem sabe 'se dar bem'. Bom é o individualista, o puxassaquista, o que encontrou um nicho em meio ao lixo cultural e moral no qual vivemos e venceu a vida por entorpecimento do cérebro e do coração. Não quero e não vou apoiar a crença que bom é o marqueteiro, o espertalhão, o flibusteiro. A isso se reduziu boa parte do ideal social do país. Não o meu. Nem hoje nem amanhã.

O Brasil está ainda tomado pela mentalidade promovida e fortalecida pela ditadura. Nela, os valores estão todos invertidos. Os que assumiram a resistência a um regime opressor são 'terroristas', os que massacraram corpos, amputaram braços e torturaram jovens e adultos, mulheres e homens são anistiados. E a impunidade reina soberana.

Vou abrir minha voz e cantar minha verdade. Não quero manter escondida uma parte de mim, minhas raízes, aquele meu começo que produziu tantas consequências importantes. Tantas coisas das quais tenho orgulho. Não vou respirar da núvem tóxica do esquecimento coletivo, tão infantil quanto míope. Não há nada do que se envergonhar, a não ser da crueldade cometida.

Para mim, que trabalho com humanização, não tem como deixar de trazer à luz as origens do meu interesse vital em humanizar o mundo. Não quero mais esconder quem sou, quem somos e por que somos o que somos. Porque é assim que tivemos que viver por todo esse tempo".

SERVIÇO
O QUE: lançamento do livro Acorda, amor (Desaventuras de uma família e de seu país)
QUANDO: sábado, 30 de agosto de 2014
HORÁRIO: das 12 às 14 horas
ONDE: estande F698 da Bienal Internacional do Livro de São Paulo 
QUEM: Adriana Tanese Nogueira, autora (estará presente Celso Lungaretti, veterano da luta armada)
LANÇAMENTO COMPLEMENTAR: livro infantil O flamingo e os pombos
MARCAÇÃO DE ENTREVISTAS / MAIS INFORMAÇÕES: aqui e aqui
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