DIÁRIO DO EXÍLIO- 04


Largo da Paz - 1924.jpgUm dia de domingo qualquer?
ruim de moura, chuvoso, triste e sem graça
07 de fevereiro de 2010
1-Deixara-me só já pela manhã. Bem que fui convidado a ir junto, mas não tive ânimo para lhes acompanhar. Com certeza eu não seria uma boa companhia da minha esposa, minha filha Janyne e minha sobrinha Melissa na ida deles a casa da minha sogra. A manhã até que fez um sol e ventou um pouco. A chuva, como tem sido a praxe por aqui, apareceu no fim da tarde, início da noite.
2- Permaneci quase todo este tempo sentado a frente do computador olhando e arrumando alguns artigos e dissertações referentes à sociologia da religião, captadas no dia anterior no site de busca Google numa lã house num lugar chamado aqui de “Cidade Baixa”, isto é, centro da cidade. Paralelo a isso, ouvia o CD do João Alexandre acústico na esperança de manter o pouco de disposição, vontade, emoção, força, pensamento, devaneios e não ser dominado por completo pela horrível melancolia que me assombra mais de perto desde que decidi vir aqui residir.
3- Ainda durante a manhã, telefonei para meu amigo Joaci. Ele não se encontrava. Foi para a cidade de candeias do Jamari visitar uma amiga com o Tales, deixando a marisca, digo, a Maria Doralice em casa dormindo. Foi com ela que conversei um pouco sobre o meu exílio pessoal. Desta nossa conversa uma coisa não vou poder esquecer: ela lembrou e repetiu uma pergunta feita pelo Joaci quando este escolheu fazer o mestrado ao invés de trabalhar no INCRA: “você prefere um marido com dinheiro triste ou um marido sem dinheiro feliz?” Nesta hora lembrei-me do Rubem Alves, da historinha do ‘retorno do pássaro encantado “que trata desta questão do tesão, do prazer como princípio de vida. Lembrei também d’um trecho de uma música do Caetano Veloso chamada “Menino Deus” que diz: “Um porto alegre é melhor que um porto seguro para a nossa viagem no escuro.” E, por fim, também de uma frase do Raoul Vaneigem que li no livro do Roberto Freire, “Sem tesão não há solução”: “Nós não lutamos por um mundo no qual a garantia para não morrer de fome troca-se pelo risco de morrer de tédio.”
4- Para almoçar, fui obrigado a sair do claustro de madeira onde estou abrigado, do casulo que venho construindo por aqui. Um mundinho ficcional alternativo ao que sou sujeitado viver. Seria isto uma espécie de autismo? Estaria eu me tornando um altista? Um ensimesmado? Não sei ainda. Fui procurar algum local que vendesse carne assada. Depois de procurar muito, achei um mercadinho onde comprei um galeto. Por pouco fiquei sem almoçar. Aqui funcionam menos estabelecimentos comercias que na capital. Se lá já é devagar, aqui é mais ainda. A urbanidade local é de roça ainda. Tive sorte ao achar também um Dydyo do preto para regar minha refeição. Nunca passou pela minha cabeça que, algum dia, o Dydyo Cola se tornaria um monumento carregado de memórias para mim? Pois é, almocei assistindo Rambo 04. Putz! Que programação em?! Mas, fico a pensar, o que faz algo rotineiro como este especial? O ato de almoçar difere do ato de comer?Será que o primeiro é feito por gente e o segundo por bicho ou ao contrário? O almoçar do Marx, Sartre, Proust e outras pessoas importantes fugia da rotina? Significavam mais que comer e encher o bucho?
5- A tarde logo chegou ao seu fim com chuva molhando minha solidão. Consegui falar com um ‘imponente’ amigo. Ele quis saber se consegui ser lotado na representação de ensino local, onde eu queria ficar e se encontrei alguma casa boa para alugar. Não! Nenhuma das duas coisas. Esta foi a minha resposta. Em relação à lotação, percebi que não conseguiria quando vi a representação cheia de professores instalados por lá. Isto é significativo à beça! O ‘lugar’ mais cobiçado e mais disputado pelos os professores não é a sala de aula como muitos pensam, mas qualquer outro lugar onde possa ser menos mandado e que possa se iludir, iludindo os outros que não tiveram a mesma sorte. Olha só qual tem sido o grande papel histórico e social dos professores: não ser professor! Trabalhar para não morrer de fome ou para manter a pose em algum carguinho de direção.  É esta minha catarse funciona um pouco. A noite para mim acaba agora com o ponto final deste meu texto.
 

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