DIÁRIO DO EXÍLIO - 05


Sem lugar certo.
Ruim de Moura-08/02/2010-Segunda Feira

1. As crianças foram levadas a escola hoje pela mãe. Eu acordei um pouco depois. Durante o café da manhã, Iza me relatou um comentário feito pelo pai dela a sua mãe. Para mim, desagradável e infeliz. Palavras mal-ditas pelo seu pai. Palavras que deveriam cair no esquecimento para ela, mas pelo contrário, ganharam eternidade pela sua boca. No tempo da minha inocência e profunda falta de malícia tentaram me ensinar que nem tudo o que agente ver ou ouve por aí deve ser reproduzido, divulgado, mas sim esquecido. Está claro que tal orientação ela não se importa em seguir. Regras de condutas só são seguidas quando nos é conveniente ou imposto. Como eu não tenho como e nem quero impor nada, resta à tese da conveniência. Será que foi para eu me sentir melhor que tive de ouvir tal coisa ou será que foi para me alertar, censurar e deixar claro meus novos limites? Coisa de quem já não está nem aí com o outro? Esta é uma leitura possível.
2. “Repito o que já te disse: se não estiver gostando, pode ir embora sozinho.” Estas sim são palavras poderosas, de uma tremenda auto-suficiência no mínimo aparente, emocionalmente independente, que pode com facilidade dispensar e descartar alguém como eu estou sendo neste momento. Que inveja eu sinto agora! Este é, no mínimo, o efeito imediato dessas palavras tão bem condensadas pela Iza na frase transcriada acima. Sinceramente, eu passei a admirá-la mais depois disso. Isto sim é que é personalidade. Não é como a minha, tão fluida, mole, gelatinosa e medrosa. Imagine só o que pode acontecer se tal condição um dia mudar? Imagine se eu fosse ao menos metade do que ela é? Eu teria vindo para este “lugar”?
3. Já me disseram em algum tempo por ai que: os nossos medos são mais fáceis de concretizar que os nossos sonhos. A minha atual vivência, experiência de vida parece confirmar tal dizer. Confesso que não tenho certeza disso, apenas suspeito. Ora, por quê? Porque minha tristeza insiste em atravessar minha escrita, meus pensamentos e meus olhares. Qual sabor tudo isso teria se eu estivesse feliz? Por isso, o que aqui registro não é e nem pode ser sentido e lido como absoluto. Por hora, só consigo externar, expurgar, exorcizar esta coisa ruim, tinhosa. “O tinhoso”, “o coisa ruim” que me perturba a um bom tempo. Ah que dificuldade abissal de construir uma vida alegre, bonita e agradável! Que impotência! Que broxa miserável! O único horizonte no momento é o do horror, o horror chamado trabalho.
4. Fonte de frustração e de realização dos outros. Falar disso é falar do coração das trevas. Marx nunca teve razão quando disse que o trabalho transforma o macaco em homem. Pelo contrário, ele transforma homens em macacos adestrados. Os únicos que de fato viram e querem permanecer homens são os patrões, os donos do capital. Por isso o horror! Agora e aqui o personagem conradiano Marlow fala por mim, resumindo todo o meu sentimento em relação ao único horizonte que está a minha disposição: “Não gosto de trabalhar. Preferiria vagabundear e pensar em todas as coisas boas que podem ser feitas. Não gosto de trabalhar nenhum homem gosta , mas gosto do que existe no trabalho a oportunidade de encontrar-se a si próprio. Sua própria realidade para você mesmo, não para os outros , aquilo que nenhuma outra pessoa jamais poderia saber. Eles podem apenas ver o resultado final, mas nunca dizer o que realmente significa.” Diretorinha do quatro de janeiro, tu tens razão, embora jamais tenha algum dia alguma compreensão: eu não gosto de trabalhar! Eu não gosto de ser macaco. Muito menos dentro do circo que você pensa que é seu.

5. Estou em busca de mim mesmo ainda. Tomara que eu me encontre por aqui. Tenho dúvidas se me encontrarei no ambiente de trabalho quando para lá eu voltar. Por hora, buscarei nas leituras que faço canibalizar a beleza produzida por outros na esperança de que ela venha fazer parte de mim e me re-integrar. Pois como diz Rubem Alves: só a beleza salva. Continuarei também com as minhas reflexões e os meus escritos na expectativa de virar alimentos para outros guerreiros melhores do que eu. A tarde chegou trazendo a chuva junto com o sol. Preciso voltar a ler. Quem sabe conseguirei fazer isso esta noite. Em relação a Iza, evitarei dizer o que penso a respeito do grande respeito e valor que ela devota sobre todas as coisas, incluindo a mim, ao seu pai, sua mãe e seus irmãos. Isso é dela mesma, embora não goste, devo respeitar e não mais me importar. Algum dia eu me livro disso. [Ponto.]
1 comentário

Postagens mais visitadas deste blog

CULTURA, INTERCULTURALIDADE E MULTICULTURALISMO: UM INVENTÁRIO DAS IGUALDADES E DIFERENÇAS TEÓRICAS NA EDUCAÇÃO

CARTA ABERTA À ADVOGADA GERAL DA UNIÃO