A "Mandocracia" reinantes nas Escolas Públicas


Segundo o Dicionário Aurélio [2004] 6ª edição revista e atualizada...

CALÚNIA: sf. Ato de procurar desacreditar publicamente alguém, fazendo-lhes acusações falsas, etc.; difamação.

DIFAMAR: v. t. d 1. Tirar a boa fama ou o crédito a; desacreditar publicamente; infamar. T. i. 2. Falar mal.

INJÚRIA: sf. 1. Ato ou efeito de injuriar. 2. Ato ou dito ofensivo, insulto. 3. Aquilo que é injusto.

OFENSA: sf. 1. Ação de ferir ou magoar alguém com palavra(s) ou ato(s). 2. Violação de regras.

DEMOCRACIA: sf. 1. Governo do povo; soberania popular. 2. Doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição eqüitativa do poder.


─ Perdoe-me senhores e senhoras pela afoiteza. Mas, mesmo sabendo que a vida não funciona como prescreve o dicionário e que as definições dele não correspondem ao vivido, gostaria, ao longo deste texto, de confrontar os cincos conceitos acima com cinco práticas autoritárias, típicas de “madocratas” e que fazem parte dos [maus e mal] costumes e tradições, de muitos que já “dirigiram” ou ainda “dirigem” Escolas Públicas infelizmente. “Mandocracias” que presenciei e de que fui vítima também nas que trabalhei, formalmente, como “auleiro” até 19 de outubro de 2009. Isto é, como alguém que foi aprovado em concurso público e contratado, pelo estado de Rondônia, para “dar” aulas de história para alunos do ensino fundamental, médio e, havendo sobra de tempo, no EJA.

Primeiro: todas elas possuem uma corte. São os apaniguados das direções escolares nomeadas, especialmente aqueles professores aliados e, alguns até simpatizantes fervorosos, do “coleguinha” a quem foi dado um cargo de “confiança” para mandar nele e nos outros. Esse tipo de “gestão” ou “mandocracia” é insetívoro: por proteção, se cerca e se nutre por pessoas que não tem nenhuma vergonha de ficar servindo de algibeira do mandão. Baratas que se nutrem do lixo, de velharias e do mofo. Não é à toa, que são seres abjetos, tão antigos quanto os dinossauros e que, se supõe que resistem até uma guerra nuclear. Pois então, o “mandocrata” precisa desses profissionais “competentes”, que na frente dele, digam AMÉM! Mesmo que por trás baixem o cacete nele. Que façam parte do elenco e cenário dos teatrinhos por ele protagonizado dentro da escola. Que sejam coadjuvantes das encenações pedagógicas que vemos nas reuniões com o corpo docente, pais e demais funcionários da escola. Que, mesmo sem ter argumento racional algum, inventam um nem que seja religioso para “convencer” a platéia que o chefe tem sempre a razão. Como traças e cupins que são, corroem a reputação dos críticos que surgem esporadicamente na escola; dos que tentam desenvolver alguma práxis estranha a vigente. Mesmo quando essa tenta se desenvolver inicialmente sozinha, dentro das salas de aulas dos supracitados críticos, num esforço inútil de evitar confrontos diretos com o “mandocrata” e sua corte.

Segundo: O que é um diretor nomeado? É aquele que “goza” [Ui!!!] da confiança do governo ou de alguém de dentro dele. Jamais do público da escola onde o mesmo é [im]posto lá para mandar. Formalmente se diz que tais “nomeações” são feitas para administrar, gerir e cuidar do patrimônio público e pior: educar. Mas, na prática, é isso que acontece? É obvio que sim! Embora que, no dia-a-dia escolar, na hora do vamos ver, a teoria na prática é outra. O dicionário do vivido é outro. O que ocorre é o que denomino de “mandocracia”, isto é, regime político baseado nos princípios de quem manda na ocasião, nos valores dos que mandam nos diretores das escolas: o governo de plantão de imediato e o Estado por eles gerenciado por fim. Um Estado democrático apenas do ponto de vista liberal e representativo e que não é um Estado democrático de fato para a maioria. Mas que funciona muito bem para a minoria: os donos do poder. Os valores ou interesses dos pais e alunos, não passam de objeto de retórica da democracia representativa. Na prática isso não existe. É pura ficção. Pois se assim não fosse: esses pais e alunos não seriam coagidos pela lei e nem continuamente ideologizados pelo Estado a colocarem seus filhos na escola pública que lhes é oferecido. Os filhos da burguesia não precisam ser convencidos a irem para a escola e nem para as escolas que existem aqui para eles.

Terceiro: Não se vive democraticamente em escola pública alguma no País. Apesar da democracia ser muito falada dentro dela e de materiais do MEC, falando sobre o assunto e sugerindo formas de procedimentos democráticos, existirem em abundância, isso não quer dizer que são produzidos para serem levados em consideração pelos maiores interessados. O regime dentro dela ainda é fabril e panóctico. Isto é: massificado, seriado, vigiado e disciplinar. Neste sentido último, a escola pública é uma instituição pinóptica porque não é tão difícil de manipulá-la e de se usar nelas, princípios simples de correção e adestramento. Sendo uma espécie de campo experimental de poder em menor escala do que vivemos em maior escala na sociedade. Até sua arquitetura é pensada para inibir comportamentos democráticos, porque são comportamentos com potencial desviante e corrosivo no interior dela. Observem como, apesar do Estado brasileiro através do MEC e esse, através dos PCN [Parâmetros Curriculares Nacionais] defenderem a avaliação contínua numa perspectiva em que o professor e o sistema educacional possam melhorar sua forma de ensinar e façam a aprendizagem acontecer, o sistema que ainda funciona firme e forte, tem como valor, não admitido, o controle e poder sobre os alunos. A “carneiriração" ou "ovelhização” de suas individualidades. E o resultado que se tem é o de sempre. Por isso a insistência em aplicar provas, teste e em semanas ditas “avaliativas”. Poucos se dão bem, mas a maioria dá o seu jeitinho... O sujeito se torna culpado, “burro” até que a próxima prova ou exame diga-lhes o contrário. Tais condutas existentes nas escolas públicas não passam de dispositivos disciplinares dos alunos bem como nos diz Focault, (1979):

O exame combina as técnicas da hierarquia que vigia e as da sanção que normaliza. É um controlo normalizante, uma vigilância que permite qualificar, classificar e punir.

Quarto: A “mandocracia” se disfarça bem de democracia, a formal. Até essa é vivida de aparência. É ofuscada por sutis deturpações. Temos um bom exemplo em Rondônia: a “semana da cidadania” que foi simplesmente imposta pelo o governo CACA, Cassol-Cahulla, através da Secretaria de Educação. Pelo que se sabe este nunca consultou o povo que usa e trabalha nas escolas, antes de mandar seus diretores fazerem tal semana acontecer. Simplesmente, os burocratas para fingirem que se preocupam com a “cidadania” tiveram a idéia, os professores postos como técnicos dentro da SEDUC desenvolveram o projeto, incluíram no calendário escolar e enviaram para as escolas executarem, podendo fazer pequenas modificações, mas não podendo recusar a realizá-lo. O mandocrata recebe a ordem e a reproduz no interior das escolas também sem pedir a permissão de ninguém. Viva a “mandocracia”, o travestir da democracia propalada nos documentos oficiais.

Quinto: Por fim, se fosse possível uma averiguação profunda e extensa no dia a dia escolar das Escolas Públicas. Se fosse possível passar um pente fino nas práticas reais que ocorrem lá dentro. Se o Estado, dito democrático quisesse mesmo e fosse do seu interesse promover a democracia de fato, a escola que temos talvez não existisse, mas existindo, possivelmente teria outros formatos. Porque as vivências democráticas gerariam isso. Mas, como isso não existe, temos em seu lugar: “mandocracias travestis” mandando nas escolas como se essas fossem fábricas ou fazenda de gado como ocorreu no governo passado. Executando ordens vindas de cima para baixo e com o apoio direto e indireto de muitos professores que reproduzem o mesmo comportamento dentro de suas “celas”, digo salas de aulas. Muitas vezes sem consciência do que faz. Será que o que disse ao longo desse texto pode ser chamado de: “Calúnia”? “Difamação”? “Injúria”? “Ofensa”? Eu que já fui aluno de escola Pública posso afirmar que não. O mesmo digo agora depois que estudei, me formei, fiz concurso e passei. O que vi e vivi no exercício da docência nesses anos todos não me contradizem para minha infelicidade e a de muitos que comigo concordam. E olha que tentei não apenas ser um “auleiro”, o professor que dar aulas. Dentro das minhas aulas, tentei, pelejei, briguei para, em liberdade, ir mais longe, ser mais que um professor: ser um desprofessor. Aquele que se recusa a doutrinar, proferir discursos, pregar, ensinar, disciplinar, professar crenças, inspirado por outros que foram também mais longe na Universidade em que me formei. Alberto Lins Caldas foi um deles. É ele quem diz [2006]:

 Pessoalmente jamais pretendi mais que a sala de aula. Escrevo artigos, ensaios, livros; combato, grito, discuto, discordo; organizo, dissolvo, oriento: somente para meus alunos, para torná-los senhores de si.

 É uma lástima, que dentro da Escola Pública a “mandocracia” repele quem assim, por esse ideal albertiano e de outros similares se guia.


Bibliografia

CALDAS, Alberto Lins. Educação e Liberdade. Primeira Versão. Ano IV, Nº201. Janeiro. Porto Velho, 2006. Volume XV- Janero/Março.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979, 17ª Edição.

_______________. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.

_______________. A História da Loucura na Idade Clássica. 1997. São Paulo, Perspectiva.














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