MEMÓRIA DE UM “SANCHO PANÇA”: MOISÉS ANTES DE SER O PEIXOTO.



PROF.MS.: JOSÉ JOACI BARBOZA




Até bem pouco tempo, dia de aniversário era dia de receber presentes, para alguns uma camiseta, um perfume, um livro ou um CD eram tidos como presentes mais que bons para receber de amigos, ou de não tão amigos assim. Hoje ou as coisas mudaram ou mudou um dos meus amigos. Ontem recebi a intimação de postar alguma coisa como presente de aniversário para ele.

Coincidentemente ou não, tinha acabado de sair de um Congresso Nacional em Educação e Tecnologias Digitais. Onde a tonalidade do debate é a necessidade de os professores e professoras estarem sintonizados com as novas tecnologias e com a rede virtual. Isso implica em falar em Messenger, Orkut, e outras parafernálias do mundo digital, ou seja, do mundo matematizado.

Isso não me impede de continuar estranhando a solicitação, embora admita que, não é mais possível ficar indiferente em relação aos novos mecanismos e instrumentos que modificaram e, podem modificar ainda mais as relações entre os sujeitos e, entre estes e o mundo, isso não implica em afirmar que esteja fazendo um juízo de valor positivo em relação as transformações. A Revolução Industrial também modificou o mundo e as relações entre os homens, contudo, para a grande maioria essas mudanças não foram benéficas.

Bom, já que o presente é esse vamos então aprofundá-lo, embora saiba que ele fica mais caro que a compra de qualquer outra lembrança, já que se trata de um processo de construção, e demanda tempo, articulação histórica e narração literária para pode enaltecer a história do outro sem provocar melindres, para si e para o outro.

Conheci Moisés quando o mesmo tinha acabado de chegar a Ji-Paraná, coincidentemente a cidade que moro na atualidade. Ele veio com outros seres humanos, também profissionais da educação, que no Governo de Jerônimo Santana (Bengala), foram recrutados no nordeste e para cá trazidos, como tantos outros trabalhadores em períodos distintos, e como os outros vieram por falta de opções de trabalho lá e não por problemas de secas, como preguiçosamente insiste em informar a historiografia regional.

O que diferia esses trabalhadores dos demais foi o meio de locomoção que os trouxe ate aqui, vieram de avião fretado pelo primeiro governador do Estado de Rondônia. Nesse período eu e outros valorosos companheiros: Albuquerque, Edilânea, Juscelino, Carlos, Marcelo, Valdinei, Rosilda, Aurélio, Chiquinho, Alípio e tantos outros estávamos criando o Movimento Estudantil secundarista em Rondônia, fazíamos embates com a direita, que tinha nos chamados independentes e num militante de Ariquemes denominado Valdecir seus maiores expoentes e disputávamos com a UJS liderada pelo camarada Alder.

Como viajávamos bastante para fazer reuniões em vários municípios sempre encontrava com Moisés que como eu, pousava na sede do SINTERO, naquele tempo uma casa de madeira pintada de amarelo. Ali discutíamos as ações, refrescávamos da empoeirada e esburacada BR 364, também fazíamos nossas farras com “pinga”, já que estudante vive sempre duro.

Evidentemente que o Moisés pouco participava da cachaçada, pois vinha de uma vida e uma família extremamente vinculada ao biblismo (prefiro esse termo a protestantismo), embora eu bem me lembre isso nunca o impediu de dividir uma conserva roubada de um supermercado do referido município, ao qual não farei referências por motivos óbvios e para não fazer propaganda gratuita.

Pouco tempo depois me ausento da ação estudantil no plano do estado, fui eleito vice-presidente da UBES e perdi o contato com o Moises. Algum tempo depois Moisés se muda para Porto Velho, pois o mesmo ainda não concluíra seu curso de História, iniciado na Fundação de Ensino Superior de Olinda - Funeso. Vai estudar na UNIR e trabalhar em algumas escolas do estado.

Ali, em Porto Velho, nossa amizade amadureceu, embora sem tomar umas cervejas, condição sine qua non para usufruir do meu convívio nesse período, pois como ele dizia seu fígado não tinha rompido com a igreja. Na UNIR tivemos o prazer de compartilhar com outros colegas a criação de um centro de estudo e pesquisa, o Centro de Hermenêutica do Presente, esse foi um espaço de formação e de boas e fraternas relações, tivemos o prazer de conviver e aprender com o Alberto Caldas.

Um dia deu a louca no Moisés e ele queria voltar para a terra mãe (Pernambuco), eu e, outro amigo comum o (“índio”) Daniel, tentamos com todos os argumentos possíveis e imagináveis convencê-lo do contrário, o que conseguimos foi impedir que ele pedisse demissão do serviço público, desse infortúnio dele adquirir a minha primeira geladeira, adquirir ou fui impelido a comprar para ajudar o amigo a viajar, obvio que ele ficou me cobrando, mesmo que eu pagasse em dia.

Como o leitor pode imaginar esse era um desastre anunciado, um mês o Moisés na casa da mamãe e nada de emprego, ele já viera de lá por que não existia o referido emprego pras banda de lá, dois meses a mamãe começou a dizer – oh Moisés, não criei filho homem para ficar em casa coçando o saco! Resultado algum tempo depois lá estava Moisés de volta e agora para seu infortúnio sem geladeira.

Depois desse tempo veio o tempo da família, a dele e a minha, para ele o início foi bastante traumático, creio que essa é uma das muitas facetas desse velho amigo, ele é simpático a tragédia. Tivemos a sorte de nossas esposas se tornarem amigas e nossos filhos partilharem vários momentos juntos. Nesse início fiquei contra ele e do lado daquela que é a atual esposa, a rolinha Iza.

Moisés ficou perambulando de escola em escola, briga com um diretor aqui, com uma supervisora ali e assim ia sendo “transferido” colocado a “disposição”, só não o colocaram a disposição dos alunos e da comunidade. Espera! Dito assim parece que esse Moisés é um xiita. Xiita não o é efetivamente, ele sim é radical, pois gosta de ir fundo nas coisas em que se envolve, comete erros? Evidentemente, quem não os comete? Porém desde que o conheço sei que a centralidade de seu pensamento está no compromisso com a educação, é um dos poucos profissionais da educação que conheço que busca refletir sobre sua prática docente.

Certa vez encontro meu amigo, dessa vez ele não mais se chamava Moisés, tinha modificado o nome, modificado sim, quis homenagear o pai que havia sido fulminado pela infame e cruel, diabetes. Desde então meu amigo não mais se chama Moisés, esse morreu junto com o progenitor que renasceu no filho agora PEIXOTO.

Hoje estamos mais distantes e é uma distância espaço/temporal, moramos no mesmo estado, só que em municípios diferentes e distantes, essa é uma distância espacial, mais outra distância nos separa, o tempo do trabalho e por que não dizer do capital, o tempo das tecnologias que nem sempre cumprem sua promessa, é uma conexão que cai, uma linha que fica muda, enfim, continuamos amigos, meu fígado ou pâncreas resolveu ficar bíblico, boicota minhas cervejas o dele continua bíblico, isso quer dizer que bebemos cada vez menos e, nos falamos cada vez menos, ainda assim continuamos e provavelmente continuaremos amigos. Sei inclusive que sou herdeiro dos livros dele, mais essa é uma herança que não quero receber tão cedo.

Feliz aniversário espero que outros quarenta e três (43) venham se somar a estes e que quando eles chegarem você esteja anda lúcido e lutando em favor de uma educação laica, gratuita, de qualidade e que seja universal.

OBS.: Texto enviado para postagem pelo próprio autor supracitado para que eu o postasse.







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