Dilemas dum historiador

Resposta aos Conselhos dado dados a mim pelo Dr.Rogério Link em relação ao Mestrado que penso fazer na UFRO.

1- Rogério, bom dia e muito obrigado! Passei o final de semana estudando e tentando precisar, delimitar o objeto da minha pesquisa inspirado em algumas leituras que estava fazendo. Anotei algumas idéias que surgiam em minha cabeça. Mas ainda não decidi nada ainda.
2- Pesando como você e estou tentando delimitar o máximo possível o objeto da pesquisa que penso em fazer. Sei que quanto maior for à delimitação temporal e espacial, mas viável fica de realizar a pesquisa. Por isso estou considerando sua sugestão e delimitar a uma instituição, a batista.

3- Porém ainda tenho algumas dúvidas a respeito. Pois pelo levantamento geral e preliminar que venho fazendo, antes do surgimento do território federal do Guaporé [Em 13/09/1943] composto por 02 municípios, Guajará-mirim, tirado do Mato Grosso e outro, Porto Velho do Amazonas, havia a presença de batistas e da Assembléia de Deus na região. Creio que fruto do chamado “protestantismo de missão”.

4- No que diz respeito aos Batistas, descobri evidências de sua presença no Mato Grosso, onde estava a cidade de Guajará-mirim em 1910. Não encontrei ligação entre os batistas do Mato Grosso com os do Pará de onde Eurico Nelson partiu para Porto Velho em missão. O curioso é que a literatura que li nesse último final de semana, dia 19 e 20 de maio afirma que Eurico Nelson foi o pioneiro do trabalho batista na Amazônia, mas, Guajará-mirim fazia parte desse Estado não era considerado parte da região amazônica? Não era Amazônia? Como pode ter sido ele o pioneiro, o “Apóstolo da Amazônia” se foram outros que levaram o trabalho batista em 1910 para esse território?→ Este é um caso a se pensar depois!

5- No que diz respeito ao pessoal da Assembléia de Deus, descobri que esta Igreja foi fundada em Porto Velho em 28/02/1922. E na cidade de Guajará-mirim em 20/05/1928 segundo Emílio Conde no Livro História das Assembléias de Deus no Brasil. → Pode ser que haja alguma relação, mas, por enquanto, não sei!

6- O fato a ser considerado é que, nesse período de 67 anos, entre o ano de 1907 a 02/02/1960, ano em que é decidida a construção da BR 364 houve um fluxo considerável de pessoas transitando via transporte ferroviário, fluvial e aéreo por essas duas cidades e arredores. Pessoas oriundas de vários lugares do Brasil e do mundo, muitos, dos mais antigos em busca do ouro branco, o látex, outros em busca do ouro e a maioria, mas recente, atraída para participar da construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré.

7- Há no meio disso tudo, a presença dos dois tipos de protestantismos, o de migração e de missão. Ambos com condutas culturais diferentes entre si e entre eles e a população católica e de religião indígena e afro descendentes dos remanescentes dos Quilombos. Todos interagindo entre si, em contatos de variados tipos, gerando assimilações culturais curiosas dentro dessa parte do Amazonas.

8- Estou curioso em descobrir, em conhecer melhor e mais profundamente o comportamento desses que eram na época chamados, pejorativamente, de “protestantes”. Quero poder comparar sua conduta cotidiana às outras condutas; sua visão de mundo as outras visões e quiçá saber como eram vistos pelas demais pessoas que com eles conviviam em Porto Velho e a Guajará-mirim desse período histórico por mim delimitado aqui. E compreender os efeitos dessas trocas culturais específicas.

9- As fontes documentais ditas primárias são poucas e se existe algumas ninguém tem certeza ainda. Por exemplo, a Primeira Igreja Batista de Porto Velho não conservou seus livros e Atas dos primeiros anos de sua existência e há a suspeita de que herdeiros de alguns membros fundadores tenha se apossado de documentos e que não colocam a disposição para pesquisa por motivos também desconhecidos. A mesma situação parece ocorrer com a Assembléia de Deus. Já quanto às fontes documentais secundárias há mais possibilidade de se obter e estudar, porém, sem deixar de ser trabalhosa sua pesquisa. Por tudo isso, estou sendo tentado a investir nas fontes orais mesmo considerando também o trabalho que elas dão a um aspirante a mestre em história como eu. As fontes orais têm qualidades que as fontes documentais não têm, pois propiciam outra versão do vivido que não é contemplada pela historia oficial e nem pelo “costume” historiográfico da universidade federal local. Sem falar que acredito na possibilidade de travar um determinado diálogo entre as duas fontes. Também descobri que há pessoas que viveram este período histórico ainda vivas e lúcidas, cujas histórias de vida carregam consigo marcas dessa época.

10- Você tem razão meu amigo quando me lembra do trabalhão que dar o uso das fontes orais; do tempo que se leva para contatar os colaboradores; conseguir sua colaboração; de registrar suas narrativas; transcrevê-las; submetê-las a aprovação dos colaboradores e de submetê-las a minha leitura dentro da temática que me proponho a trabalhar. Concordo que os dois anos pagando as disciplinas do mestrado diminuirão meu tempo de pesquisa de campo, mas, se a pesquisa fosse puramente e totalmente baseada em documentos escritos, seria diferente? Sobraria mais tempo? Daria menos trabalho? Tenho minhas dúvidas. Creio que o trabalho é quase o mesmo. Mas, por enquanto não posso ter certeza alguma até conseguir entrar para o desejado curso. Sei por experiência que entramos com um projeto em mente e nem sempre saímos com o mesmo! Muitas vezes, o resultado é outra coisa!

11- Muito obrigado por ter iniciado um diálogo comigo. Espero que possamos continuar com ele: seus palpites são valiosos. Estou aberto as suas observações sejam elas críticas ou não. Sinta-se a vontade da mesma forma que outro velho amigo meu se sente. Aguardarei o resultado de sua leitura dessa carta e os comentários desse outro amigo meu, mestre em Geografia pela UFRO.

Um abraço cordial:

Peixoto


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